domingo, 8 de julho de 2012

26. Além de Tudo


Acordo e aqui está ela, dormindo do meu lado, do jeito em que eu a deixei ontem à noite, nua e cheirando a whisky de segunda, a diferença é que ontem ela era mais bonita. Bem mais bonita.
Odeio isso. Antigamente as pessoas tinham a educação de sair silenciosamente antes que o dono da cama acordasse. Só falta ela querer café da manhã.
Visto minha cueca e acendo um cigarro, talvez assim ela acorde e vá embora.
Ela acorda.
—Posso pegar um? — Ela diz esfregando os olhos e apontando pro maço.
Não.
—Pode. — Eu respondo passando o isqueiro.
—Aumenta um pouco o som. — Ela diz e eu percebo que o B.B. King ainda está tocando no computador desde ontem, a Lucille deve estar quase sem cordas já.
Puta garota folgada. Não mexo um músculo, quem sabe se eu me fingir de morto ela desiste e vai embora. Ela se levanta da cama, me dando esperanças, mas só aumenta o volume e volta pra cama.
—Mais uma rodada? — Ela diz pegando no meu pau, felizmente derrubado de exaustão.
—Melhor não, vai que você gosta e resolve ficar mais. — Eu respondo.
Ela ri como se eu estivesse brincando.
—Tem alguma coisa pra comer?
Era só o que me faltava...
—Não. — Eu digo colocando as roupas dela na cama. — Melhor você ir embora antes que a minha mulher chegue.
—Você é casado?
Se eu fosse casado, eu teria uma cama de solteiro, caralho?
—Sou.
Ela ri de novo. Puta risada irritante. A ressaca não ajuda em picas.
—Me diz que você não gostou de me ter aqui.
Além de tudo ela é comediante.
—O certo é “ter-me”. — Eu digo.
—Eu sei, é porque parece com meter e...
—É. — Eu interrompo. — Eu sei com o que parece.
Ela se veste em silêncio. Ah, o precioso silêncio... Levo-a até a porta.
—Devíamos repetir a dose algum dia. — Ela diz antes que eu fechasse a porta.
Além de tudo ela é comediante...

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