quarta-feira, 27 de julho de 2011

12. CHEGA!

Dedicado à Nathalia Carvalho que deu a ideia e acabou com meu jejum de inspiração.


—CHEGA! Chega dessa vida de contos de fadas! — Eu grito, do nada, pro cara na minha frente. Ele se assusta. — Chega de esperar o príncipe encantado! CHEGA! CHEGA de sensibilidade! VIVA a loucura! VIVA a aventura! É isso que deve ser valorizado acima de tudo!
O cara da minha frente me olha com uma cara de interrogação. Ele é fofo e tudo mais, mas eu não quero isso! Eu quero enlouquecer! Quando ele me chamou pra sair, achei que seria libertador, mas não é!
—Eu disse alguma coisa errada? — Ele me pergunta, ainda com a cara de interrogação.
—Pelo contrário! Você disse tudo certo até agora, mas não é isso que eu quero agora, na verdade, não é disso que eu preciso agora! — Eu respondo, me levantando. É como se toda minha agitação não coubesse dentro do meu corpo e eu precisasse me movimentar para dar espaço a ela.
—Do que você precisa agora? — Ele me pergunta, sem se levantar, todo cool, todo perfeitinho, dentro dos padrões.
—Algo mais, eu não sei! Preciso de excitação, movimentação, agitação, sei lá!
Ele se levanta imediatamente, me pega pela mão e me leva para fora do café em que estávamos.
—Aonde estamos indo? — Eu pergunto, agora confusa, enquanto ele parece confiante, o filho da puta tomou o controle.
—Segredo. — Ele responde com um sorriso de canto de boca enquanto me venda com sua própria gravata. — Você disse que queria uma aventura. Vou te dar uma aventura.
Eu entro no carro dele, sem ver nada, meu coração bate tão forte de excitação que eu sinto meu peito explodindo. O carro anda por uns bons 30 minutos antes de parar. Ele me ajuda a sair, andamos um pouco e ele tira minha venda. Estamos na casa dele, mais precisamente no quarto dele.
Ele segura na barra da minha saia e, antes de levantá-la, pergunta:
—Posso?
Até nessas horas ele é um cavalheiro. Impressionante. Eu o jogo na cama e tiro a roupa.
***
O sexo foi incrível. Não posso deixar de sentir meu coração batendo forte ainda, mas não é de cansaço, não é de excitação. Toda minha barreira de aventura foi derrubada, minha sensibilidade me atacou de novo. Essa porra deve ser crônica, não é possível.
—Posso te fazer um café amanhã? — Eu pergunto, enquanto ele fuma um cigarro.
—Sinto muito, querida. — Ele responde. — Mas você vai ter que ir embora logo, minha mulher chega amanhã de manhã de viagem.
—Você não disse que era casado! — Eu digo, indignada.
—Você não perguntou... — Ele responde com a maior tranqüilidade do mundo.
Filha da puta.
CHEGA! Chega dessa vida de contos de fadas!

domingo, 24 de julho de 2011

11. Bar/Bistrô


Sento na mesinha do bar ou seja lá como os franceses chamam esse bistrô que só serve álcool e aperitivos, o lugar é iluminado apenas por velas, sem luz elétrica. Não acho que bar seja uma palavra apropriada pra um lugar como esse. Bistrô também não é. O garçom chega já de nariz empinado, nariz grande de francês.
            —Me vê um absinto e aquela porção de queijos. — Eu digo sem tirar os olhos do menu.
            O garçom volta com um copo de whisky com absinto e gelo dentro.
            —Cadê aquele torrão de açúcar? — Eu pergunto antes que ele tivesse a chance de sair à francesa.
            —Não estamos no século dezenove, monsieur. — Ele responde. Bem viadô esse garçom.
            —Vocês não usam luz elétrica e você me diz que não estamos no século dezenove? — Eu rebato.
            —Pardon, monsieur, providenciarei o torrão. — Dá pra sentir o ódio no tom de voz do babacá.
            Os vinhos da França são excelentes, o fromage é incomparável, mas os garçons... Por mim só teria Buffet na França, nenhum estabelecimento teria garçom. Eles podem ser adeptos da Igualdade e da Liberdade, mas faltou a Fraternidade.
            O absinto e o queijo chegam e são praticamente jogados na mesa como cartas de baralho. O garçom francês que pegue no meu caralho.
            Olho em volta em busca de algo que não sei exatamente o que é. Algo para me ocupar. Eis que vejo uma moça sentada do lado de fora do Bar/Bistrô fumando um cigarro e lendo um livro com uma taça de vinho na mesa, me sinto dentro de um filme do Godard. Loirinha, cabelo liso e longo, olhos azuis e todos os outros clichês da Nouvelle Vague que você puder pensar. Paris é a cidade dos clichês, acho que foi por isso que nunca traduziram essa palavra.
            Ensaio um approach mentalmente por alguns segundos enquanto bebo minha fada verde. Fada verde que não existe porra nenhuma, tudo marketing. Levanto-me e vou até a mademoiselle solitária. Levo o copo pro garçom viadô não cuspir dentro.
            —Salut, mademoiselle. Posso sentar? — Pergunto apontando para a cadeira vazia à frente dela.
            Ela me olha de cima a baixo dá um sorriso tímido e, quando está prestes a responder, sou empurrado para longe com força o suficiente pra me derrubar, só não caí para não derramar absinto. Quando olho para meu agressor não fico surpreso em ver que é o garçom. Justo a porra do garçom.
            O viadô, que não é tão viadô afinal, me acerta um gancho no queixo tão forte que nem o meu absinto me salva da queda. Quando consigo me levantar, vejo a francesinha bradando para qualquer alma passante o quão idiota o garçom é. Se tivessem lido os primeiros parágrafos, teria sido redundante. Ele estava de cabeça baixa.
            Por mais que eu concordasse com a mulher, eu não pude evitar sentir pena do garçom humilhado na frente de todos, humilhação dói mais do que qualquer soco. Fui até ele e o puxei para dentro do estabelecimento.
            —Esquece essa vadia, se ela gostasse de você não te humilharia assim. Senta aí, te pago um absinto. — Eu disse enquanto a chienne protestava contra meu ato de solidariedade.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Bem Vindos à Segunda Década do Século XXI


            É engraçado pra caralho ver como o mundo está cada dia mais infestado de mau gosto. Ando por dois minutos na minha faculdade e já é notável a falta de bom senso. Vejo as mesmas roupas, os mesmos tênis, os mesmos cortes de cabelo, os mesmos assuntos banais, chaves de carros caros girando em torno de dedos de batedores de punheta profissionais.
            Não se vê mais tribos como antigamente, hoje vemos uma única massa sem massa cinzenta alguma. Não se pode falar de arte com alguém que só sabe o nome dos renascentistas por causa das tartarugas ninja. Não se pode falar de música com alguém que acha que um DJ é mais criativo e talentoso apertando o play do que um pianista de jazz que passou a vida estudando para ser o que é. Não se pode falar de livros com alguém que se orgulha em dizer que não gosta de ler.
            A vida noturna foi outra vítima dessa nova raça de jovens, os boêmios “Filhos da Revolução” da França do começo do século XX foram, aos poucos, sendo substituídos por grandes pickups tocando bate-estaca no máximo num posto de gasolina. Os bares e pubs somem e dão espaço aos lugares onde a conquista fica em segundo plano e a mononucleose é de fácil acesso num ambiente onde ninguém se vê ou se ouve.
            As pessoas pagam caro por esse novo estilo de vida e todos os dias eu me pergunto se elas estão satisfeitas com isso, se vale a pena gastar 200 reais para entrar num lugar onde a conexão por um beijo é mais fria do que um aperto de mão e mais banal do que uma comédia de Hollywood.
            A cada ano, a cada moda que vai e que volta, eu tenho esperança de que tudo vai melhorar, nem que seja um pouco, mas sempre sou atingido por um tapa na cara, tapa que vem da mão de um mau gosto maior ainda.