terça-feira, 24 de janeiro de 2012

21. Amo a Ideia de Te Amar

Ela sorria pra mim aquele sorriso capaz de fazer derreter o mais duros dos corações enquanto eu segurava sua mão. Homens que dizem que o sorriso é a primeira coisa que prestam atenção numa mulher são chamados de mentirosos, mas bunda ou peito algum diz mais sobre ela do que um sorriso. Não acredito que é a última vez que eu vejo aquele sorriso por um bom tempo. Ela olha nos meus olhos e eu me sinto nu enquanto ela vasculha cada centímetro da minha alma. Mas eu não tenho medo, não com ela.
            —Fica. — Ela diz. Ela diz isso de um jeito que me faz estremecer. Eu quase digo que sim, que eu fico, mas eu não posso. Eu quero ficar quase tanto quanto eu quero ir embora.
            —Você sabe que eu não posso. — Eu digo com o coração apertado. Apertado como se meu corpo fosse pequeno demais, quase insuportável. Um calafrio sobe pela minha espinha.
            —Eu sei, eu quero que você vá, de verdade. Mas também quero que você fique. — Ela diz com um sorriso triste estampando o rosto. Sorrio de volta tentando parecer mais animado, mas não sei se consigo.
            Acendemos um cigarro cada um enquanto o jazz toca e a música é o único som dominando o espaço entre nós dois. Tudo ficou em câmera lenta por alguns instantes, o jazz, a fumaça dos cigarros, os movimentos dela enquanto dançava. Dançava como se nada mais no mundo importasse, como se fosse a última dança da história da humanidade. Tudo isso numa tragada de cigarro. Essa tragada podia durar pra sempre, a música, a dança, o sorriso. Tudo deveria ter sido eternizado.
            Mas não foi. Quando dei por mim ela estava me abraçando com força e eu retribuía enquanto acariciava sua nuca. Queria beijá-la como se não houvesse amanhã, queria levá-la comigo, queria dizer o quanto eu amava a ideia de amá-la. Mas não fiz nada disso.
            Quando nos soltamos tudo que eu pude fazer era olha para aquela boca, para aqueles olhos, para aquele sorriso tão inocente e ao mesmo tempo tão cheio de significado. Eu queria captar aquele momento e guardar na minha cabeça pra sempre. Aquele momento específico, com aquela expressão no rosto.
É o tipo de coisa que todo homem sonha em ver, sua garota num instante de perfeição absoluta, onde todos os elementos estão completamente em harmonia. Os sons, os gestos, os batimentos do coração. E eu estava presenciando isso e uma alegria tomou conta de mim, uma alegria que eu não sentia há anos. O tipo de alegria que faz você ficar arrepiado como se não coubesse dentro de você.
—Promete não me esquecer? — Ela diz ainda com aquele sorriso quente, acolhedor.
—Eu não te esqueceria nem se eu quisesse. — Eu digo antes de dar o último beijo.
            Último por enquanto.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

20. Ou Não

Ele e aquele sorriso. O sorriso dele o faz parecer invencível, imortal. Cabelos negros e bagunçados, corpo musculoso e esse estilo de estrela do rock que me faz pirar.
            O que é aquilo na mão dele? Ele está muito longe, mas parece uma lata de cerveja. Minhas amigas detestam homens que bebem, mas eu gosto, dá uma aura misteriosa pra eles. Os que fumam também.
            Que merda! Ele nem olha pra mim! Ele fica balançando a cabeça, acompanhando o ritmo da música e eu olhando feito uma besta. O bar inteiro deve ter percebido já. Pego um cigarro na bolsa e acendo.
            —Pode parar, mocinha! — O garçom grita do balcão. — Não se fuma mais em lugar fechado. — Ele diz apontando pro teto e pras paredes.
            —Vai se foder. — Resmungo apagando o cigarro no chão mesmo.
            Por que ele não me nota? Nada no mundo me faria mais feliz agora, nem as minhas amigas que ficam fofocando aqui do meu lado, nem o baseado que tem na bolsa de uma delas, nem mesmo o papelote de coca que tem na minha.
            Ele olha. Eu congelo. Minha boca fica seca e eu dou mais um gole no meu gin. Ele grita alguma coisa no ouvido de um dos amigos dele que também me olha e sorri. Agora eu é que estou fingindo não ver.
            O garçom pentelho vem na direção da minha mesa e me entrega uma taça de Dry Martini.
            —Cortesia daquele rapaz na pista. — Ele diz apontando pra ele. — Ele só pediu o seu telefone em troca.
            Anoto meu número num guardanapo e dou para o garçom. Observo toda a movimentação desde a entrega do guardanapo até o sumiço do meu garoto. Alguns minutos se passaram e uma mensagem chega no meu celular. Me encontra ao lado do balcão.
            Levanto e vou até ele.
            —Ouvi dizer que você andou me observando. — Ele diz sorrindo. Sua voz é linda.
            —Boatos... — Eu respondo sorrindo de volta.
            Ele avança e seus lábios quase tocam os meus. Não tem nada nesse mundo que eu gostaria mais do que um beijo dele aqui e agora.
            —Mas eu não posso! — Ele me olha confuso, tadinho. — Você vai me beijar agora, pode se apaixonar ou não por mim, mas eu já estou apaixonada por você e não quero arriscar os 50% de chances existem de não ser recíproco. Não quero sofrer por você, não quero chorar. Você pode ser cruel comigo ou não, são outros 50%. Eu não sei mais o que pensar, eu te olhei esse tempo todo, é verdade, olhei você dançando, pulando, delirando. Eu mesma delirei por você. Você poderia delirar por mim ou não, mais 50%! As probabilidades estão tanto ao nosso favor como contra nós! Nunca saberemos ao certo como isso vai terminar. Podemos ir bem e pra sempre ou mal e nunca mais nos veremos de novo, é, eu sei, adicionei mais 50%!
            —Quer só conversar por enquanto? — Ele me pergunta.
            —Quero, como você sabia que eu gosto de Martini?
            —Eu tinha 50% de estar certo e estava, não?
            Eu o beijo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Não Cabe em 140 Caracteres #2

Aconteceu comigo esses dias...
—Você sabe que eu sempre fui apaixonado por você, né? — Eu disse.
—Rapha, você nunca foi apaixonado por mim, você nunca foi apaixonado por ninguém. Você sempre foi apaixonado pela idéia de estar apaixonado.
E acho que ela tinha razão. As minhas ex-namoradas que me desculpem, mas acho que eu nunca amei de verdade nenhuma delas. A forma como eu lido com o término, a velocidade com que eu esqueço tudo por mais intenso que tenha sido...
Talvez seja por isso que eu escrevo sobre amor mais do que eu digo “eu te amo”, a idéia é mais interessante do que a prática pra mim.
Acho que às vezes a gente fica tão obcecado procurando aquela forma de amor do romantismo, idealizada que aceita o que vier pela frente e distorce tudo na cabeça, fazendo o lixo parecer perfeito e apaixonante. Talvez o amor do romantismo nem exista, talvez todos estejam presos dentro de uma idéia, tão presos que a idéia passa a ser a realidade.
Está na hora de trocarmos os “eu te amo” sem significados para “eu amo a idéia de te amar” que contém muito mais verdade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

19. Pequeno Conto Que Quase Todo Homem Já Viveu

           Menino conhece menina. Menino se apaixona pela menina. Menina quebra o coração do menino. O coração do menino fica duro como pedra. Menino vira um babaca com as meninas e sai por aí quebrando corações.
            Menino amadurece. Menino muda e seu coração não é mais pedra. Menino conhece menina. Menina quebra o coração do menino. O ciclo recomeça.