quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

5. Novela, o câncer


Eu cresci em uma família de mulheres que assistem a novelas da Globo, no entanto, tenho ódio desse tipo de programa. A Globo tem uns 15 autores de novelas diferentes, três novelas por dia e ainda assim é tudo igual! Mocinho+mocinha+vilão+vilã = Mocinho quer mocinha, vilão se junta com vilã pra não deixar por algum motivo que ninguém nem lembra no meio da novela. Pronto, escrevi uma novela em duas linhas.
A verdade é que a novela é um atraso sócio-cultural. Não vou puxar saco dos EUA ou da Europa, vou relatar fatos. A indústria cinematográfica mais poderosa do mundo, está nos Estados Unidos, os filmes mais inteligentes vêm da Europa e o que fazemos aqui? Fazemos filmes medíocres com enredo de novela, escritos por escritores de novela, produzidos pela Globo e com atores de novela. Nossos filmes se resumem a novelas de duas horas. Os Tropas de Elite 1 e 2 não foram filmes tão bons quanto a mídia fez parecer, mas se compararmos com o resto das produções nacionais, são filmes quase hollywoodianos. Scorcese faz filmes de crime desde os anos 60. Isso tudo sem contar que nossos filmes só falam de pobreza, favela ou são comédias românticas com fórmulas que copiam filmes mais antigos.
Dito isso, e a nossa literatura? Quantos autores literários temos hoje em dia que podemos dizer: Oh! Esse cara escreve como ninguém! A literatura brasileira está estagnada em gente que morreu há mais de 100 anos. Escreveram clássicos, claro, não vou tirar o mérito deles, mas e depois? Agora imagine se um autor de novela canalizasse a criatividade num romance. Seria excelente, eu leria na hora. Mas não, estão mais preocupados em entreter velhas donas de casa todas as noites.
Aí você vem e fala: Ah, mas nos Estados Unidos eles têm novela também. Fato. Mas a prioridade deles não é essa, as produções são fraquíssimas, o horário é aquele em que ninguém vê e o foco deles é outro. Eles estão mais preocupados em fazer seriados, esses sim têm produção cara e bem feita e passam no horário nobre, atingindo um público enorme. A diferença entre novela e seriado é simples: seriados são inteligentes (salvo exceções), novelas não.
Não estou dizendo que o Brasil é um país de terceiro mundo porque temos novelas, mas digo que isso atrasa infinitamente a nossa cultura.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

4. Reflexos Apologéticos


Esse é o primeiro post que eu escrevo direto no blog, sem papel, sem caneta, sem Word, sem nada. Também é o primeiro em que falo sobre mim diretamente, sem metáforas em contos ou viagens imaginativas. Talvez seja o post mais odiado do blog, talvez a maioria já tenha parado de ler. Foda-se, esse post é mais pra mim do que pra qualquer outra pessoa. É algo que preciso externar de mim.
Acho que todos estão familiarizados com tristezas aparentemente sem motivo. Eu estou. Eu costumo ouvir música quando passo por isso, me ajuda a refletir melhor sobre o que me deixou pra baixo e geralmente são músicas relacionadas com o que eu sinto. Por exemplo, se estou ansioso ouço Patience do Guns, se estou puto, ouço qualquer coisa dos Sex Pistols e acho que deu pra pegar a ideia.
Mas dessa vez nenhuma música traduzia o que eu sentia. Eu apelei pras baladinhas românticas, amor isso, amor aquilo, amor perdido, amor reconquistado, amor pra porra. Nada. Eu não me identifiquei com nada. Até ouvir She Holds a Grudge do Jet e percebi que o que eu estava sentindo não era amor, não era saudade, não era ódio, não era depressão crônica. Era arrependimento, eu estava me identificando com as músicas que pedem desculpas. Por algum fator catalisador eu comecei a me arrepender de tudo que fiz de errado pra outras pessoas no passado (É bom frisar que falo de pessoas que não mereceram).
Quanto ao fator catalisador, talvez tenha sido o ano novo, sei lá, a entrada na faculdade, a saída do colégio, o começo de uma fase completamente nova. Não faz diferença, na verdade. Só sei que esse ano pretendo consertar o que dá pra consertar e poder seguir em frente em paz.
Se você leu até aqui, muito obrigado por aguentar. E uma dica: não prometa que vai ser uma pessoa melhor, simplesmente seja.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

3. Empate



Eram vizinhos, eram jovens, eram livres, cheios de sonhos, hormônios e de sexos opostos. Mas não se conheciam direito, se viam no elevador do prédio eventualmente, mas nunca passaram da trivialidade do “Oi, tudo bom?” e do “Ish, acho que vai chover hoje”.
            Ele vivia cada dia como se fosse seu último. Já tivera mais namoradas do que gostaria de admitir. Sempre foi fiel, mas quando ficava solteiro, tocava o puteiro, quase que literalmente. Conhecia a arte do xaveco e dificilmente passava um fim de semana sozinho. Tinha medo da solidão.
            Ela era diferente, seus cabelos e olhos cor de mel faziam parte de um rosto incrivelmente bem desenhado, nariz perfeito, sobrancelhas perfeitas, orelhas perfeitas, boca perfeita. Ela não curtia o queixo dela, mas tudo indica que ela era a única. Era dedicada, estudava muito e, ao contrário dele, pensava muito no futuro.
            Ela não sabia que ele ficava sem ar sempre que a via na garagem ou no saguão de entrada. Ele não sabia que ela também.

            No dia anterior ele havia comprado ingressos pro teatro, mas descobriu que sua namorada o traía com um cara que a amiga havia apresentado. Puta merda, ele sempre odiou aquela amiga. Foda-se, pensou.
            Ela entra no elevador, o ar sai na hora. Ela vê os ingressos e diz:
            —Vai ao cinema hoje?
            —Teatro. — Ele corrige tentando ser simpático, mas ainda está puto. — Eu ia, mas...
            —Furaram com você? — Ela interrompe bem-humorada.
            —É, pode-se dizer que sim. Escuta, você não tá afim de ir com seu namorado ou algo assim?
            —Eu não tenho namorado, bobo, mas chamo meu irmão. Brigada. — Ela diz sorrindo. Que sorriso...
            Ele entrega os ingressos e ela sai do elevador. Sai com um suspiro característico. Ela precisava de aparelhos respiratórios depois de vê-lo. E depois disso, sua paixonite só havia crescido, por mais que se achasse tola e iludida por isso.
            Ele respira fundo também, por um momento, o fato de ele ter sido corneado tão recentemente não importou mais. Mas os pensamentos voltaram e ele precisava de cromossomos XX pra ajudá-lo a se recuperar. Chega no boteco mais próximo e grita para o garçom:
            —Fábio, me manda aquela dose dupla de Jack Daniel’s, pelo amor de Deus.
            Uma voz familiar atrás dele comenta na hora.
—Dose dupla sempre significa que você está fugindo de algo.
Ele se vira e vê a Giovanna lá, tragando seu cigarro majestosamente e bebericando sua vodka.
—Vodka pura também não fica muito longe disso, Gi. E para de fumar, é muito broxante.

Ela assiste à peça, mas não consegue se concentrar. Ela só pensa nele e em como poderia agradecê-lo. O irmão, mais novo, Fernandinho, sai falante, comentando todos os detalhes do espetáculo, liga pra mãe pra contar tudo, sem paciência para esperar chegar em casa. Enfim, é o típico irmão mais novo pentelho.
Ela dirige seu Punto semi-novo pela cidade pensando nele e o vê saindo de um táxi em frente ao prédio com uma morena. Ambos bêbados.
—Puta merda. — Ela deixa escapar em voz alta enquanto manobra na garagem.
—O que foi? — Pergunta Fernandinho?
—Nada, você não entenderia.
Eles entram no elevador e encontram os dois. Ele abre um sorriso imenso (de bêbado, como ela pensa) e diz:
—Olá, moça bonita e garotinho... Chato. Gostaram da peça?
—Não vai apresentar sua amiga? — Ela diz secamente.
—Ah sim, que rude de minha parte. Essa daqui é a Giovanna, velha parceira de copo.
—Copos. — Corrige Giovanna. Os dois se olham e começam a rir.
O elevador para e os irmãos saem. Ao pisar dentro de casa, ela começa a chorar. Corre para o quarto e chora mais. Chora como se quisesse secar na hora.

—Amiga, você tem que pagar o cafajeste na mesma moeda! — Carla diz ao telefone com ela na manhã seguinte. Os olhos dela estão inchados e vermelhos e soluços ainda são reprimidos de vez em quando.
—Você quer que eu fique desfilando pelo prédio com um homem de aluguel? Além de ridículo, é capaz de ele nem ligar. — Ela responde.
—Custa tentar? Chama o Luis da outra sala, ele é gay mesmo, não tem risco. A não ser que ele também se apaixone pelo seu macho.
Ela dá sua primeira risada no que pareceu ser uma eternidade.

Ele acorda, toma dois comprimidos de Engov e nota que a Giovanna está nua na sua cama. Tenta lembrar como aconteceu. Sem sucesso. Pensa na vizinha. Quer sair com ela, ele está solteiro, ela está solteira. Por que não?
            —Gi, acorda, você tem que vazar. — Ele diz dando leves empurrõezinhos nas costas nuas dela.
            —Quero um beijo pra acordar. — Ela diz com aquela voz de zumbi sonolento.
            Ele dá um beijo na testa dela, ela se levanta sorrindo, se veste e sai. Os comprimidos não fazem efeito. Ele se deita e resolve dormir mais.

            —Luis, eu preciso da sua ajuda. — Ela diz na escola para o gay do terceiro ano e explica todo o seu drama com o vizinho.
            —Querida, se eu te ajudar, vai ter um bofe a menos no mercado. — Ele diz afetadamente.
            —Eu te pago.
            —E eu tenho cara de quem precisa de dinheiro? — Ele retruca. Realmente não tem.
            —O que você quer então, baitola?
            —Quero que você sonde o Jayme do segundo ano e veja se ele é gay, bi, curioso ou algo do gênero.
            —Fechado. Vamos pra casa.
           
            Ele acorda pela segunda vez no mesmo dia e vê que perdeu a hora da faculdade. Tudo bem, ele não precisa de nota. Pelo menos a ressaca passou. Ele pensa nela e percebe que é hora de agir, ela é especial. Passam-se alguns minutos enquanto ele ensaia o que dizer.
            Chega no hall do elevador e vê que está parado no andar dela. Maravilha, os pais dela estão trampando e o irmão ainda tá na escola. Só pode ser ela. Sozinha.
            Ele está nervoso, sente uma gota de suor se formando no topo de sua testa e seu dedo treme enquanto tenta mirar na campainha. Acerta. Os segundos se arrastam até que ele ouve a chave girando.
            A porta finalmente se abre e lá está ela. Seus olhos cor de mel reluzindo à luz de fim de tarde.
            —Oi — Ele diz um tanto quando hesitante. Ela acena com a cabeça pedindo-o para continuar. — Sabe... É... Eu... Eu andei pensando muito em você ultimamente. E... Assim... Eu meio que senti uma coisa muito boa entre nós, não sei explicar. O que acha que sairmos um dia desses? Ir ao cinema, teatro ou algo assim? Quero te conhecer melhor.
            —Eu também, inclusive... — Ela quer muito continuar, mas é interrompida pela voz do Luis, da cozinha.
            —Amor! Acabou a cerveja! — Ele diz tentando ao máximo esconder a voz afetada. Sem grande sucesso. — Opa, tudo bom? Sou o Luis, o namorado dela — Ele diz chegando à porta.
            —Oi. — Ele diz e se volta para ela. — Achei que você havia dito que não tinha namorado.
            Ela ia responder, mas ele se vira, entra no elevador e a porta se fecha. Ela ia dizer que não era o que ele estava pensando. Ia jogar o caso Giovanna da noite passada na cara dele. Ia dizer que estava apaixonada e que o Luis era gay e que estaria mais interessado nele do que nela.
            Mas ela não disse nada.

            —Empata o jogo, rapaz. — Diz Fábio, o garçom do boteco, sempre com palavras sábias, o maior conhecedor de filosofias de boteco que existe em São Paulo. — Olha lá — Ele diz apontando para uma mulher (falsa) ruiva fumando de pé, com meia arrastão, mini saia, salto plataforma e um top de couro. — Aquela lá é a Tiffany. Solteira e liberal.
            —“Liberal” é seu eufemismo pra puta, Fábio? — Ele diz enchendo seu décimo quarto ou vigésimo quarto copo de cerveja.
            —É, mas ela não cobra nada.
            Ele se levanta, vira o resto de cerveja, vai até a Tiffany, a pega pela mão e a beija. Maldito gosto de cigarro, ele pensa.
            —Eu moro naquele prédio da esquina, tá afim? — Ele diz e Tiffany assente.

            —Porra, Luis! — Ela grita, ainda em casa, para o amigo gay. — A gente não tinha combinado que eu iria dar o sinal na sua hora de entrar?
            —É — Ele diz com um sorrisinho cínico — Mas eu queria ver o circo pegar fogo.
            Ela chega perto dele e o soca no olho, fazendo-o cambalear para trás e o puxa pela camisa até a porta, ao abri-la para jogar o colega fora, a porta do elevador também se abre e seu vizinho sai com uma ruiva artificial vestida de puta. Pode até ser uma puta de verdade, ela pensa.
            —Oi! — Ele diz visivelmente bêbado de novo — Como eu conheci seu namorado hoje mais cedo, eu achei justo que você conhecesse minha namorada também, né?
            Luis vai saindo à francesa enquanto ele fala.
            —E qual é o nome dela? — Ela pergunta impacientemente olhando para Tiffany.
            —Ah sim, essa é a... a... calma... — Se vira para Tiffany. — Qual é mesmo seu nome, querida?
            —Tiffany — Ela responde rindo.
            —Ah, que belo nome! Diferente, hein! — Ela diz, mas é óbvio que acha que é um puta nome de puta. Vira-se para ele — Quero falar com você em particular. Vem cá. — E o puxa pela mão até o quarto.
            —Ah, finalmente vou conhecer seu quarto. — Ele diz enquanto vê o mundo girando ao seu redor.
            —É, olha o foco. Eu sei que aquela garota não é sua namorada, provavelmente você deve ter pago uns 80 reais lá na Augusta por ela.
            —Aí que você se engana. — Ele diz e sussurra no ouvido dela: — Foi de graça.
            —Tá, tanto faz. A questão é que o Luis também não é meu namorado.
            De repente a sobriedade começou a tomar conta dele e seu coração acelera.
            —Não? — Ele pergunta confuso.
            —Não... E, por mais ridículo que isso seja, ele é gay e eu estava usando ele para fazer ciúmes em você.
            —E eu usei a Tiffany para fazer ciúmes em você.
            —Eu percebi, por isso eu me abri com você. A gente ficaria nesse joguinho pra sempre!
            —Espera um pouco. — Ele diz indo até a porta do quarto. — Tiffany, meu bem, pode ir, eu vou ficar aqui por um tempo.
            —Que seja — Ela resmunga saindo do apartamento.
            Ele volta para perto dela e eles se sentam na cama.
Ele a beija.