segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

2. Dia De Noite



A noite quente queima meu corpo como um fogo distante afastando meu sono e me fazendo pensar que Morfeu nunca pareceu tão longe. Acendo um cigarro e olho para a cidade que também parece insone, mas alheia ao meu sofrimento.
Um escritor que não escreve; um poeta sem sua musa. Tento enxergar dentro das janelas ainda acesas, mas tudo que vejo são luzes embaralhadas em meio ao inferno em que vivo. Lá se foi a lucidez.
Embriagado pela dor, acompanho o tango da fumaça do cigarro indo em direção ao infinito. Depois passo a seguir as cinzas caindo, voando e rindo da minha cara.
Os carros passam aos poucos, mas sem parar. Imagino que seus motoristas e acompanhantes estejam se divertindo. Bom para eles.
Por favor, Morfeu, por favor, me leva embora. Me deixe dormir, me deixe sonhar.
Me pergunto se os outros insones da noite paulistana estão sentindo o mesmo que eu. Provavelmente não.
Onde foi que tudo deu errado? Onde foi que eu deixei cair a alegria?
O cigarro não está nem na metade e parece que já se passaram anos desde que eu o acendi.
Sento numa cadeira e tiro meu velho canivete do bolso. Admiro os reflexos das luzes sem sono na lâmina por um instante. Faço a ponta da faca percorrer vagarosamente o meu peito nu. Por alguns segundos, ou assim parecem, penso em fincá-la de uma vez no meu coração e a pressiono com um pouco mais de força na região.
Não, não vou acabar assim como um fracassado. Pelo menos não agora.
Uma sirene de ambulância começa e quebra meu silêncio de depressão. Poderia ser eu dentro dela.
Apago o cigarro e me livro da bituca com certa repulsa.
O calor vai se intensificando e uma rajada de vento escaldante é jogada em cima de mim como quem diz: Você não é bem-vindo, vá embora.
Acredite, eu já tentei ir embora, vento.
O deus do sono me deu o bolo hoje. Disse que ia pegar um drink para mim, mas desapareceu. Deve ter encontrado outro par para dançar.
O rádio toca um rock dos anos 70, a década onde tudo era mais simples e nada era levado tão a sério. Sexo, drogas e rock ‘n’ roll.
Volto para meu quarto e me deito, mas é inútil. Não consigo parar de me revirar na cama. Tudo culpa dela, ela é quem roubou meu sono ao me fazer pensar nela constantemente.
Olho pela janela e lá está o clarão de um novo dia.
A gente se vê depois, Morfeu.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

1. Desabafos Alucinados de Um Gênio Pretensioso


            Tudo começa com as amizades. É tudo claro e bem definido até uns 15 anos. Até lá você tem amigos e desafetos. Só. Não existem simples conhecidos ou falsidade. Mas depois há uma reviravolta que deixa a linha cada vez mais tênue, os amigos viram conhecidos, conhecidos viram desafetos, desafetos viram inimigos e os que viram amigos são cada vez mais próximo, o que, de fato, é bom.
            Mas é estranho, pelo menos para mim, me afastar de pessoas que eu considerava amigos. É estranho trocar piadas e conversas cada vez mais esporadicamente com uma pessoa. O que eu me pergunto, aqui, sentado alcoolizado, chapado, na frente dessa máquina é: Por que, porra?
            Talvez o motivo seja ela. O motivo é sempre ela. É por causa dela que eu respiro, por causa dela que eu sorrio, por causa dela que eu derramo cada vez mais lágrimas, por causa dela que eu suspiro, por causa dela eu mataria, por causa dela eu morreria.
            Ele tem ciúmes de mim. Há! Justo de mim! Claro que de mim, eu já fui, e vou, mais longe do que ele jamais iria chegar com ela. Talvez mais longe do que ele já foi com qualquer outra.
            Já a toquei, já a mordi, já a chupei, já a beijei, já a acariciei, já a apalpei. Eles nem sabem. Alguns desconfiam, poucos sabem, a maioria nem imagina.
            Assim como a amizade, o amor fica borrado com o tempo. No começo eu amava cada garota que passava por mim. Inocência, eu acho. Mas fui esfriando com o tempo, descobri que o que eu sentia por elas nunca foi amor, foi uma paixão forte. Nada mais. Agora eu acho difícil amar, me envolvo mais em relações superficiais baseadas em sexo do que em amor.
Admito, eu sou um escroto, faço elas acreditarem que eu as amo, mas é só para conquistá-las por algumas noites. Mas agora é diferente, o ar foge dos meus pulmões e minhas veias congelam quando penso que não posso tê-la. Eu a amo de verdade, como nunca amei antes. A ironia está no fato de ser um amor impossível pra mim. Sempre foi ao contrário, hoje voltou contra mim.
Engraçado pensar num cara errado, frio e duro como eu, apaixonado. Perdidamente apaixonado. De qualquer forma, é para ela que eu dedico cada letra, cada sílaba, cada palavra, cada frase, cada linha, cada parágrafo e cada história. É para a minha musa inspiradora. É para meu único e verdadeiro amor.
É para você também, caso esteja interessado.
Amo você.