quarta-feira, 13 de abril de 2011

9. Jazz e Vinho Tinto


—Eu te amo. — Ela me diz olhando nos meus olhos.
            —Eu também, meu amor. — Eu respondo sorrindo.
            A sala, iluminada apenas por algumas velas, está impregnada pelo jazz que sai da velha vitrola. Encho nossos copos com um pouco mais de vinho.
            —Sério? Às vezes não parece. — Ela me diz com um olhar suplicante.
            Deve ser a milésima vez que ela me diz isso em tão pouco tempo do nosso relacionamento estranho. Ela não imagina o quanto eu já sofri por demonstrar todo meu amor a alguém. Respiro fundo e sinto vontade de chorar.
            — Eu sei, mas é difícil pra eu repetir algo que já me machucou tanto. Tanta dor acabou criando um tipo de prisão dos meus sentimentos. Mas eu tento, eu tento mesmo demonstrar. — Eu respondo depois de algum tempo.
            Ela se levanta e acende mais uma vela. Penso em como ela fica linda só de calcinha e com a minha camisa. As sombras bruxuleantes da sala fazem eu me sentir num filme antigo. Se ela pudesse ao menos enxergar dentro de mim, o que ela pensaria?
            —Se você ama mesmo, me descreve o amor. — Ela me diz se sentando de novo ao meu lado no chão.
***
Ele pensa. Demora demais para responder. Os segundos viram minutos na minha cabeça. Continuo encarando os olhos verdes dele e admirando seu tronco nu entre as luzes e sombras dançando. Penso em como ele fica lindo com essa calça jeans.
            —Não sei se dá pra descrever o amor. Mas o que eu sinto é a vontade de ficar perto de você a cada segundo. Sinto calafrios em te imaginar longe, meu coração quase para quando eu imagino que posso te perder. Eu consigo me ver daqui vários anos com você. Me vejo casando com você, tendo filhos com você, envelhecendo com você até o fim dos meus dias e eu nunca consegui visualizar isso com outra pessoa. — Ele responde antes de sorver um belo gole do vinho.
            Bebo um pouco de vinho e fico pasma. Talvez o filho-da-puta realmente me ame.
—Eu te odeio. — Eu digo quase chorando. Ele franze o cenho sem entender nada. — Cara, só você é assim. Quando eu acho que não temos mais salvação você arruma um jeito de fazer tudo ficar bem. E tudo acontece de um jeito tão inocente que me derrete quando eu deveria ficar mais do que puta com você.
            —Esse é tipo de coisa que te deixa molhadinha? — Ele pergunta sorrindo. Eu sorrio junto mordendo o lábio.
            —Promete que nunca vai me deixar?
***
—Prometo. — Eu respondo de prontidão. Nunca fiz uma promessa tão honesta antes.
            Os olhos dela se enchem de lágrimas e ela se joga em mim, me abraçando com força.
***
            Ele me abraça de volta e eu sei que tudo, tudo vai ficar bem.
            Nós nos beijamos.

domingo, 3 de abril de 2011

8. O Cortês


Era um trabalho simples e limpo, o cliente me liga, marca um ponto, nos encontramos, eu vendo e vou embora. Sem armas, sem favela, tudo baseado na cordialidade entre vendedor e comprador.
            O chefe dizia que havia uma lista seleta de fregueses e que eu não deveria incluir mais nenhum nas vendas. Eu bem que tentei por um tempo, mas algumas pessoas não sabem o que “não” significa
            —Por favor, eu preciso de um fornecedor que seja confiável. — Ele me dizia todas as terças enquanto eu aguardava meu cliente no parque.
            —E eu com isso?
            —Dizem que você é um vendedor que eu posso confiar.
            —Não sou vendedor de nada, você deve ter me confundido com outra pessoa.
            —Por que você insiste nesse seu joguinho? Deixe-me ser seu comprador e eu te deixo em paz. — Devo admitir que eu me divertia muito com o sofrimento misturado com irritação e desespero dele.
            —Você não conhece meu chefe. — Eu dizia por fim antes de avistar meu cliente, correr até ele e colocar a mercadoria em seu bolso ao mesmo tempo em que pego o dinheiro. Era tudo extremamente discreto. Esse cliente comentou uma vez que eu tinha mãos tão leves que eu poderia seguir carreira como batedor de carteiras. Talvez eu ainda siga.
            Depois de alguns dias, falei com o chefe sobre o chato do parque.
            —Nem pensar! — Ele disse categoricamente. — Não sabemos a precedência desse sujeito, ele pode comprometer todo o empreendimento. Quem falou de você pra ele afinal?
            —Não tenho idéia, ele não disse.
            —Nem pensar! — Ele repetiu. — Os clientes devem passar pela minha aprovação antes de chegar a qualquer vendedor meu.
            Mas a minha conversa com o chefe não fez o chato desistir. Ele continuou indo ao parque todas as semanas. Um mês e meio se passou antes de eu finalmente explodir.
            —Chega! Porra! Não é possível que você precise tanto de erva! Toma essa merda! — Abri minha mochila e joguei dois pacotinhos na cara dele. — Agora some da minha frente!
            Mas ele não sumiu. Ao contrário, ficou parado e sorriu.
            —Não se mova — Ele disse e puxou uma arma do cós das calças. — Você está preso.