terça-feira, 10 de julho de 2012

27. Terrivelmente Bom


O elevador pára. Viro-me para a porta e a vejo entrar. O ar vai embora. É sempre assim. Não consigo respirar direito quando ela se aproxima.
            —Oi. — Ela diz com um sorriso.
            —Olá. — Eu respondo tentando sorrir também. Sem sucesso.
            O ar vai embora aos poucos dos meus pulmões. Preciso engolir em seco. Mas não posso. Isso é sinal de tensão. Tenho que parecer relaxado. Engulo em seco. O elevador não chega nunca. Os segundos viram horas. Dias.
            A gente deve morar no mesmo prédio há mais de 10 anos. Ainda assim eu fico tenso ao encontrá-la no elevador. Ainda assim eu nem imagino qual seja o nome dela.
            Hoje. Hoje eu descubro. Eu preciso saber. Mas preciso tomar coragem antes. Respiro fundo. Abro a boca para falar.
            —Você toca numa banda, não toca? — Ela pergunta antes que eu possa reproduzir algum som. Merda.
            —Toco. — Eu respondo friamente. Não por antipatia. Mas por não conseguir pensar direito. As palavras simplesmente saem nessas horas. O ar ainda não preencheu meus pulmões.
            Tá. Vou tentar de novo. Respiro fundo. Olho para ela. Ela está sorrindo para mim. O sorriso dela me desarma. O sorriso dela congela minhas veias. Eu quase posso sentir meu coração parar por uma fração de segundo.
            É uma sensação péssima. Mas é muito bom.
            —Qual é o seu nome? — Eu pergunto me espantando com minha própria falta de sutileza. Eu praticamente vomito as palavras. O elevador pára. Não. Não agora. Eu. Preciso. Saber.
            Ela me olha e sorri. Olha para a porta e a empurra. Vira-se pra mim e diz. Ainda sorrindo:
            —Acho que essa resposta vai ficar pro próximo passeio.

domingo, 8 de julho de 2012

26. Além de Tudo


Acordo e aqui está ela, dormindo do meu lado, do jeito em que eu a deixei ontem à noite, nua e cheirando a whisky de segunda, a diferença é que ontem ela era mais bonita. Bem mais bonita.
Odeio isso. Antigamente as pessoas tinham a educação de sair silenciosamente antes que o dono da cama acordasse. Só falta ela querer café da manhã.
Visto minha cueca e acendo um cigarro, talvez assim ela acorde e vá embora.
Ela acorda.
—Posso pegar um? — Ela diz esfregando os olhos e apontando pro maço.
Não.
—Pode. — Eu respondo passando o isqueiro.
—Aumenta um pouco o som. — Ela diz e eu percebo que o B.B. King ainda está tocando no computador desde ontem, a Lucille deve estar quase sem cordas já.
Puta garota folgada. Não mexo um músculo, quem sabe se eu me fingir de morto ela desiste e vai embora. Ela se levanta da cama, me dando esperanças, mas só aumenta o volume e volta pra cama.
—Mais uma rodada? — Ela diz pegando no meu pau, felizmente derrubado de exaustão.
—Melhor não, vai que você gosta e resolve ficar mais. — Eu respondo.
Ela ri como se eu estivesse brincando.
—Tem alguma coisa pra comer?
Era só o que me faltava...
—Não. — Eu digo colocando as roupas dela na cama. — Melhor você ir embora antes que a minha mulher chegue.
—Você é casado?
Se eu fosse casado, eu teria uma cama de solteiro, caralho?
—Sou.
Ela ri de novo. Puta risada irritante. A ressaca não ajuda em picas.
—Me diz que você não gostou de me ter aqui.
Além de tudo ela é comediante.
—O certo é “ter-me”. — Eu digo.
—Eu sei, é porque parece com meter e...
—É. — Eu interrompo. — Eu sei com o que parece.
Ela se veste em silêncio. Ah, o precioso silêncio... Levo-a até a porta.
—Devíamos repetir a dose algum dia. — Ela diz antes que eu fechasse a porta.
Além de tudo ela é comediante...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

25. Convites Antigos Num Mundo Moderno


Lá está ela, absolutamente linda, sorrindo como se a vida fosse uma eterna brincadeira. Eu sonho com os lábios desse sorriso se juntando aos meus lábios nervosos e trêmulos.
Respiro fundo e chego perto dela, ensaiando mentalmente cada palavra.
            —Oi, eu... Tava pensando se... Você não gostaria de ir em casa uma tarde dessas pra, sei lá, ouvir uns CDs. — Eu digo, quase sem ar. É, talvez tenha faltado ensaio.
            Ela ri, ri aquele sorriso que faz tudo em volta ficar insignificante.
            —Por que eu iria até a sua casa ouvir um CD se eu posso baixar na internet? — Ela responde entre risadas.
            Pleno século XXI e eu a chamando pra ouvir CD em casa, lá se foi a minha investida favorita. Eu podia ter a chamado pra tomar um café, pra ir ao cinema... Mas não, chamei pra fazer a única coisa que não se faz mais hoje em dia.
            —Olha, eu entendo que você possa ouvir o disco que você quiser de graça na sua casa. — Eu digo tentando me salvar. — Mas na minha casa você pode ouvir o disco que você quiser de graça e ainda terá companhia, talvez com uma cerveja e um cigarrinho e com certeza um bom papo.
           Eu honestamente não sei de onde saiu essa eloquência. Ela me olha espantada por um tempo e depois sorri, me fita da cabeça aos pés e diz, olhando nos meus olhos, congelando o meu sangue:
            —Você mora longe?