segunda-feira, 24 de outubro de 2011

18. Silêncio

—Acende o cigarro pra mim, eu não sei usar esses seus isqueiros. — Ela diz me passando um Marlboro light.
Acendo e passo de volta pra ela. Ela ri pra mim e eu rio pra ela. Não dizemos nada por um tempo, só olhamos um para o outro. Ela fala finalmente.
—Esses momentos são raros.
—Que momentos? — Pergunto enquanto enrolo um cigarro pra mim.
—Esses momentos em que duas pessoas podem ficar em silêncio e esse silêncio não é constrangedor.
—Tem razão. — Eu digo distraído enquanto grudo a seda do cigarro com saliva. — Muito raros.
O silêncio volta a tomar conta do ambiente, o único som é do estralar das sedas dos cigarros e da respiração enquanto fumamos e soltamos fumaça, não tiramos os olhos um do outro. O silêncio pode ter durado horas, dias, anos... Para mim continuaria parecendo segundo. Mais uma vez, ela é a primeira a falar.
—Gosto disso.
—Do quê?
—De gente que olha nos olhos e não desvia o olhar.
Desvio o olhar sem querer.
—Você acabou de perder um pouco da graça. — Ela diz.
—Foi mal, não fiz de propósito.
—Eu sei. — Ela diz e sorri. Se vocês pudessem ver aquele sorriso... Minha casa nunca pareceu tão pequena como parecia perto daquele sorriso.
Os sons da cidade interrompem um novo silêncio, pneus cantando na rua, bêbados gritando, boêmios rindo, mas nada disso importa. A mão dela sob a minha, ambas geladas e úmidas pelas cervejas que segurávamos, faz tudo valer a pena. Os sons bizarros de São Paulo viram música para meus ouvidos.
Nossos rostos se aproximam, ela toma a iniciativa e me beija. Desnecessário dizer que eu retribuo de muito bom grado. Nos separamos, eu estou sorrindo que nem um idiota. Ela está simplesmente sorrindo.
—Foi mal. — Ela diz. — Não fiz de propósito.
—Eu sei. — Eu digo e sorrio.
Nos beijamos de novo. Dessa vez pelo resto da noite.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Não Cabe em 140 Caracteres #1

É impressionante como a música nacional evoluiu nos últimos vinte e tantos anos, outro dia descobri um poeta chamado Michel Teló. Ele escreve magistralmente versos como estes:
Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego


Mas isso não é nada comparado com outro expoente da poesia musicada, o senhor Gusttavo Lima. Ele é o autor dos versos:
Tchê tcherere tchê tchê,
Tcherere tchê tchê,
Tcherere tchê tchê,
Tchereretchê
Tchê, tchê, tchê,
Gustavo Lima e você.


Com tanto intelecto, quase nos esquecemos daqueles péssimos letristas dos anos 80, uns tais de Titãs, por exemplo, escreviam letras fracas e sem significado como:
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte


Ou o mundo não é mais tão inteligente ou eu é que sou burro pra caralho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

17. Todos Dizem Eu Te Amo


            Uma vez me disseram:
            —Eu te amo. — Olhei com uma cara surpresa. — Como amigo, claro. — A moça tentou consertar. Mas já era tarde, eu tava apaixonado também. Pena que durou pouco. Ela me amava, eu só estava apaixonado. A vida tem dessas coisas.
            Outro dia, foi o contrário, eu disse:
            —Eu te amo. — Não dá pra negar que fui egoísta, eu esperava da minha interlocutora a mesma reação que eu tive com a garota que me disse isso na primeira vez. Errei.
            —Olha, eu não te amo, eu só gosto muito de você, você é como um irmão pra mim. — Foi o que ela me disse. Fiquei só vontade.
            “Como um irmão pra mim” é a segunda pior coisa que se pode ouvir de alguém que se gosta.
            A moral dessa história? Nem sempre as pessoas agem da mesma forma que você agiria.

domingo, 2 de outubro de 2011

16. Observações


Observação nº1: Andar na chuva é subestimado, poucas pessoas entendem a chuva como um fenômeno amigo. Andar na chuva é como tomar um daqueles banhos reflexivos, só que ao ar livre. E de roupas, a menos que você queria ser preso.

Observação nº2: Não importa o quão fodida seja sua vida amorosa, você não pode provocar um cara sem futuras intenções só porque outro cara te provocou até te machucar, ok? Ok.

Observação nº3: Se você acha que clichês não existem na vida real, tente me olhar agora, com uma taça de vinho, um cigarro numa sala iluminada apenas por uma vela e a luz da tela do computador. Durma com esse barulho.

Observação nº4: Ando triste sem saber o motivo. Mentira, eu sei o motivo. O motivo é que eu sempre tenho dois caminhos certos pra tomar e sempre pego o caminho certo errado. Dá pra entender?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

15. Soneto Pra Pessoa de Sempre


Ninguém morre de amor
O amor morre de ninguém
O ninguém é a ausência
A ausência não vale um vintém

O luto pelo amor assusta
Assusta e causa insônia
A insônia apaga a lembrança
Lembrança sem cerimônia

O abraço vazio ao vento
Vento beijando o além
O nada que é o amor

A paixão pelo desdém
Desdém pelo agressor
Agressor que é ninguém

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

14. Casa de Massagens


Olho para aquele envelope magro de dinheiro na mesa, olho para a cara dele, sentado a minha frente e rio do ridículo daquela situação.
            —Só isso? — Eu pergunto recontando o dinheiro pela terceira vez sem acreditar naquela merreca.
            —Só. — Ele diz lendo o jornal sem sequer levantar os olhos.
            —Como você espera que eu sustente dois filhos com essa merda?
            Ele me olha e dá um sorriso cínico.
            —Não é problema meu. — Ele responde. — Você é quem veio me pedir emprego, sua puta, você é quem quis se prostituir sabendo que você custa o que você vale.
            Saio da sala a passos largos e mergulho no neon do clube reparando nas outras garotas. Ele tinha razão, eu não valho muito mais do que recebi; é o pior clube da Augusta e devo ser a mais velha daqui. Um cliente entra e se senta no bar. É a minha deixa.
            —Me paga um drinque, gato? — Eu digo passando a mão na coxa dele.
            —Desculpa, mas quantos anos você tem? — Ele me pergunta logo de cara.
            —Trinta e quatro. — Eu digo tirando quase quatro anos.
            —Você é muito velha.
            —Broxa. — Eu resmungo me levantando, mas ele ouve.
            —Como é, sua vadia? — Ele grita e me puxa pelo cabelo para perto dele. — Do que você me chamou?
            Algumas pessoas são sensíveis demais. O bafo dele está impregnado de whisky e cerveja, até eu poderia derrubá-lo de tão bêbado. As outras meninas fecham um círculo a nossa volta, prontas para me defender caso eu precise.
            Não, eu não preciso. Vejo uma garrafa vazia de cerveja no balcão que não hesito em quebrar na cabeça dele. Quando ele finalmente me solta, aponto-lhe o vidro quebrado.
—Eu disse bro-xa! Seu escroto! Não se mexe assim comigo.
O sangue escorre cobrindo o rosto dele enquanto o covarde filho-da-puta corre pra fora do clube.
O dono sai de sua sala.
—Você ficou louca, sua cachorra? — Vejo fúria e medo misturados nos olhos dele. —Agora a polícia vai baixar aqui e eu vou em cana, puta barata!
O som das sirenes se aproxima enquanto eu vejo o medo crescendo ainda mais nos olhos dele.
—Não é problema meu. — Eu digo indo embora.

sábado, 27 de agosto de 2011

13. Filosofia de Boteco


A mesa redonda do bar estava rodeada de notívagos, todos camaradas, falantes e risonhos. Exceto pelo Moreno, mulato quietão, de braços cruzados, só observando e ouvindo, aparentemente, atentamente à conversa dos outros.
—Godard não é um gênio, ele só é bom de improviso! Gênios contam histórias, Scorcese sim é um gênio. — Disse um dos boêmios para quem quisesse ouvir.
—Seguindo essa lógica, Edgar Allan Poe era um péssimo poeta, já que suas poesias não tinham história. — Respondeu outro.
—Poesia não tem que ter história. — Retrucou o primeiro.
—Exato! E o Godard faz poesia audiovisual! — Disse uma garota entrando na conversa. — Tai um cara pra quem eu não daria. Godard.
—Pra quem você daria? — Perguntou o segundo.
—Jack Kerouac, deve ser pintudo e bom de pegada. — Ela responde sem um pingo de vergonha. Todos riem, até o Moreno.
Moreno, enfim, se manifestou e pediu mais uma cerveja pro garçom, atraindo a atenção do resto do grupo para ele.
—E você, Moreno, o que acha do Godard como cineasta?
—Acho porra nenhuma, bicho.
—Ih, ta de mau humor, Moreninho? — Perguntou a garota.
—Não, só acho o papo de vocês raso pra caralho.
—Como assim?
—Vocês ficam discutindo o cinema do Godard, a literatura do Allan Poe, a porra do tamanho da piroca do Kerouac, mas não se aprofundam em nenhum nesses assuntos. — Ele acende um cigarro e continua — Vocês querem falar de arte, mas a arte não é rasa assim, ela exige um conhecimento que nenhum de nós nessa mesa temos. Nenhum de nós tem repertório pra isso.
Ele dá mais um trago no cigarro e finaliza a cerveja do seu copo em um gole.
—Moreno, meu querido, você que ta complicando as coisas, nós não estamos num debate filosófico na Casa do Saber, é só um papo de bar.
Moreno enche seu copo e diz:
—Eu entendo seu lado, mas tem assuntos que são mais interessantes, mais profundos e mais apropriados pro ambiente.
—O que é profundo o suficiente pra você, Moreno? — Pergunta a garota sorrindo com os olhos.
Moreno dá uma longa tragada no cigarro, deixando uma reticência no ar e, por fim, diz:
            —Boceta.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

12. CHEGA!

Dedicado à Nathalia Carvalho que deu a ideia e acabou com meu jejum de inspiração.


—CHEGA! Chega dessa vida de contos de fadas! — Eu grito, do nada, pro cara na minha frente. Ele se assusta. — Chega de esperar o príncipe encantado! CHEGA! CHEGA de sensibilidade! VIVA a loucura! VIVA a aventura! É isso que deve ser valorizado acima de tudo!
O cara da minha frente me olha com uma cara de interrogação. Ele é fofo e tudo mais, mas eu não quero isso! Eu quero enlouquecer! Quando ele me chamou pra sair, achei que seria libertador, mas não é!
—Eu disse alguma coisa errada? — Ele me pergunta, ainda com a cara de interrogação.
—Pelo contrário! Você disse tudo certo até agora, mas não é isso que eu quero agora, na verdade, não é disso que eu preciso agora! — Eu respondo, me levantando. É como se toda minha agitação não coubesse dentro do meu corpo e eu precisasse me movimentar para dar espaço a ela.
—Do que você precisa agora? — Ele me pergunta, sem se levantar, todo cool, todo perfeitinho, dentro dos padrões.
—Algo mais, eu não sei! Preciso de excitação, movimentação, agitação, sei lá!
Ele se levanta imediatamente, me pega pela mão e me leva para fora do café em que estávamos.
—Aonde estamos indo? — Eu pergunto, agora confusa, enquanto ele parece confiante, o filho da puta tomou o controle.
—Segredo. — Ele responde com um sorriso de canto de boca enquanto me venda com sua própria gravata. — Você disse que queria uma aventura. Vou te dar uma aventura.
Eu entro no carro dele, sem ver nada, meu coração bate tão forte de excitação que eu sinto meu peito explodindo. O carro anda por uns bons 30 minutos antes de parar. Ele me ajuda a sair, andamos um pouco e ele tira minha venda. Estamos na casa dele, mais precisamente no quarto dele.
Ele segura na barra da minha saia e, antes de levantá-la, pergunta:
—Posso?
Até nessas horas ele é um cavalheiro. Impressionante. Eu o jogo na cama e tiro a roupa.
***
O sexo foi incrível. Não posso deixar de sentir meu coração batendo forte ainda, mas não é de cansaço, não é de excitação. Toda minha barreira de aventura foi derrubada, minha sensibilidade me atacou de novo. Essa porra deve ser crônica, não é possível.
—Posso te fazer um café amanhã? — Eu pergunto, enquanto ele fuma um cigarro.
—Sinto muito, querida. — Ele responde. — Mas você vai ter que ir embora logo, minha mulher chega amanhã de manhã de viagem.
—Você não disse que era casado! — Eu digo, indignada.
—Você não perguntou... — Ele responde com a maior tranqüilidade do mundo.
Filha da puta.
CHEGA! Chega dessa vida de contos de fadas!

domingo, 24 de julho de 2011

11. Bar/Bistrô


Sento na mesinha do bar ou seja lá como os franceses chamam esse bistrô que só serve álcool e aperitivos, o lugar é iluminado apenas por velas, sem luz elétrica. Não acho que bar seja uma palavra apropriada pra um lugar como esse. Bistrô também não é. O garçom chega já de nariz empinado, nariz grande de francês.
            —Me vê um absinto e aquela porção de queijos. — Eu digo sem tirar os olhos do menu.
            O garçom volta com um copo de whisky com absinto e gelo dentro.
            —Cadê aquele torrão de açúcar? — Eu pergunto antes que ele tivesse a chance de sair à francesa.
            —Não estamos no século dezenove, monsieur. — Ele responde. Bem viadô esse garçom.
            —Vocês não usam luz elétrica e você me diz que não estamos no século dezenove? — Eu rebato.
            —Pardon, monsieur, providenciarei o torrão. — Dá pra sentir o ódio no tom de voz do babacá.
            Os vinhos da França são excelentes, o fromage é incomparável, mas os garçons... Por mim só teria Buffet na França, nenhum estabelecimento teria garçom. Eles podem ser adeptos da Igualdade e da Liberdade, mas faltou a Fraternidade.
            O absinto e o queijo chegam e são praticamente jogados na mesa como cartas de baralho. O garçom francês que pegue no meu caralho.
            Olho em volta em busca de algo que não sei exatamente o que é. Algo para me ocupar. Eis que vejo uma moça sentada do lado de fora do Bar/Bistrô fumando um cigarro e lendo um livro com uma taça de vinho na mesa, me sinto dentro de um filme do Godard. Loirinha, cabelo liso e longo, olhos azuis e todos os outros clichês da Nouvelle Vague que você puder pensar. Paris é a cidade dos clichês, acho que foi por isso que nunca traduziram essa palavra.
            Ensaio um approach mentalmente por alguns segundos enquanto bebo minha fada verde. Fada verde que não existe porra nenhuma, tudo marketing. Levanto-me e vou até a mademoiselle solitária. Levo o copo pro garçom viadô não cuspir dentro.
            —Salut, mademoiselle. Posso sentar? — Pergunto apontando para a cadeira vazia à frente dela.
            Ela me olha de cima a baixo dá um sorriso tímido e, quando está prestes a responder, sou empurrado para longe com força o suficiente pra me derrubar, só não caí para não derramar absinto. Quando olho para meu agressor não fico surpreso em ver que é o garçom. Justo a porra do garçom.
            O viadô, que não é tão viadô afinal, me acerta um gancho no queixo tão forte que nem o meu absinto me salva da queda. Quando consigo me levantar, vejo a francesinha bradando para qualquer alma passante o quão idiota o garçom é. Se tivessem lido os primeiros parágrafos, teria sido redundante. Ele estava de cabeça baixa.
            Por mais que eu concordasse com a mulher, eu não pude evitar sentir pena do garçom humilhado na frente de todos, humilhação dói mais do que qualquer soco. Fui até ele e o puxei para dentro do estabelecimento.
            —Esquece essa vadia, se ela gostasse de você não te humilharia assim. Senta aí, te pago um absinto. — Eu disse enquanto a chienne protestava contra meu ato de solidariedade.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Bem Vindos à Segunda Década do Século XXI


            É engraçado pra caralho ver como o mundo está cada dia mais infestado de mau gosto. Ando por dois minutos na minha faculdade e já é notável a falta de bom senso. Vejo as mesmas roupas, os mesmos tênis, os mesmos cortes de cabelo, os mesmos assuntos banais, chaves de carros caros girando em torno de dedos de batedores de punheta profissionais.
            Não se vê mais tribos como antigamente, hoje vemos uma única massa sem massa cinzenta alguma. Não se pode falar de arte com alguém que só sabe o nome dos renascentistas por causa das tartarugas ninja. Não se pode falar de música com alguém que acha que um DJ é mais criativo e talentoso apertando o play do que um pianista de jazz que passou a vida estudando para ser o que é. Não se pode falar de livros com alguém que se orgulha em dizer que não gosta de ler.
            A vida noturna foi outra vítima dessa nova raça de jovens, os boêmios “Filhos da Revolução” da França do começo do século XX foram, aos poucos, sendo substituídos por grandes pickups tocando bate-estaca no máximo num posto de gasolina. Os bares e pubs somem e dão espaço aos lugares onde a conquista fica em segundo plano e a mononucleose é de fácil acesso num ambiente onde ninguém se vê ou se ouve.
            As pessoas pagam caro por esse novo estilo de vida e todos os dias eu me pergunto se elas estão satisfeitas com isso, se vale a pena gastar 200 reais para entrar num lugar onde a conexão por um beijo é mais fria do que um aperto de mão e mais banal do que uma comédia de Hollywood.
            A cada ano, a cada moda que vai e que volta, eu tenho esperança de que tudo vai melhorar, nem que seja um pouco, mas sempre sou atingido por um tapa na cara, tapa que vem da mão de um mau gosto maior ainda.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

10. Você


            Você vai entrar com ela naquele banheiro sujo daquele bar sujo. Você vai ver que não tem espelhos lá, vai ter que ser na tampa da privada mesmo. Você a pega pela cintura e tenta beijá-la. Sem sucesso. Ela vai te dizer:
            —Não! Eu não posso te beijar!
            —Por que não? — Você vai perguntar.
            —Você é um conquistador e eu não quero ser jogada fora como as outras.
            Tudo o que ela disser vai ser verdade e isso vai doer em você, mas não o suficiente pra te fazer parar. Você vai perceber que nunca tinha visto a si mesmo como um conquistador, mas você é um conquistador. Sempre foi e sempre será assim. Uma ponta de orgulho vai te espetar com força.
            —Olha, a gente dá um tiro e depois eu te dou um beijo de 10 segundos. — Ela vai dizer enquanto você enfileira duas carreiras de coca na sua identidade falsa em cima da tampa da privada.
            —É justo. — Você vai dizer sem dar muita atenção.
            —Tudo bem, 15 segundos. — Ela vai retificar e mostrar ainda que quer mais do que 15, mas você vai continuar sem dar muita atenção.
            Você vai pegar sua nota de 20, enrolar cuidadosamente e aspirar sua fileira de uma vez, vai passar a nota pra ela e ela vai fazer o mesmo. Você vai chegar perto dela e beijá-la ao mesmo tempo em que descobre que ela não beija bem. Sua mão vai tentar compensar esse fracasso descendo até a bunda dela, mas ela vai tirar.
            — Quinze. — Ela vai dizer meio sem fôlego quando te empurrar pra longe.
            Você vai pensar que foram os quinze segundos mais longos da sua vida, arrependido. Vai sair do banheiro aos olhos suspeitos dos outros clientes do bar, mas todos sabem o que acontece naquele banheiro então você vai pensar: Foda-se.
            Você vai sentar à mesa e vai bebericar seu whisky e vai conversar com seus amigos e com quem mais quiser ficar entre vocês.
Você vai ver que ela se levantou de novo e foi até o banheiro de novo levando a bolsa dela. O banheiro não tem espelho, então se ela for passar pó no nariz, não vai ser um pó qualquer.
Você vai perceber que ela já está no banheiro a tempo demais, vai tirar a mão da cintura da desconhecida que você vai estar beijando na hora e vai atrás dela. Vai bater na porta do banheiro e ela não vai abri-la. Você finalmente resolve arrombar a porta e a chuta, já pedindo desculpas para o dono do bar que é seu amigo e xará.
Você vai vê-la jogada no chão.
            Você vai chegar perto dela e vai constatar que ela não respira mais, vai ver uma espuma branca saindo da boca dela. Seus amigos vão chamar a ambulância, mas você não quer que saibam que a coca era sua, você vai colocar um pouco do pó na ponta do seu cigarro, vai limpar suas digitais do frasco de pó com sua camisa e vai jogá-lo no chão ao lado dela.
            Um lençol vai ser colocado por cima do corpo dela enquanto os paramédicos a levam embora numa maca. Seu amigo vai perguntar:
            —Como você está?
            —Bem, ela beijava mal mesmo... — Você vai responder meio sem pensar. Meio.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

9. Jazz e Vinho Tinto


—Eu te amo. — Ela me diz olhando nos meus olhos.
            —Eu também, meu amor. — Eu respondo sorrindo.
            A sala, iluminada apenas por algumas velas, está impregnada pelo jazz que sai da velha vitrola. Encho nossos copos com um pouco mais de vinho.
            —Sério? Às vezes não parece. — Ela me diz com um olhar suplicante.
            Deve ser a milésima vez que ela me diz isso em tão pouco tempo do nosso relacionamento estranho. Ela não imagina o quanto eu já sofri por demonstrar todo meu amor a alguém. Respiro fundo e sinto vontade de chorar.
            — Eu sei, mas é difícil pra eu repetir algo que já me machucou tanto. Tanta dor acabou criando um tipo de prisão dos meus sentimentos. Mas eu tento, eu tento mesmo demonstrar. — Eu respondo depois de algum tempo.
            Ela se levanta e acende mais uma vela. Penso em como ela fica linda só de calcinha e com a minha camisa. As sombras bruxuleantes da sala fazem eu me sentir num filme antigo. Se ela pudesse ao menos enxergar dentro de mim, o que ela pensaria?
            —Se você ama mesmo, me descreve o amor. — Ela me diz se sentando de novo ao meu lado no chão.
***
Ele pensa. Demora demais para responder. Os segundos viram minutos na minha cabeça. Continuo encarando os olhos verdes dele e admirando seu tronco nu entre as luzes e sombras dançando. Penso em como ele fica lindo com essa calça jeans.
            —Não sei se dá pra descrever o amor. Mas o que eu sinto é a vontade de ficar perto de você a cada segundo. Sinto calafrios em te imaginar longe, meu coração quase para quando eu imagino que posso te perder. Eu consigo me ver daqui vários anos com você. Me vejo casando com você, tendo filhos com você, envelhecendo com você até o fim dos meus dias e eu nunca consegui visualizar isso com outra pessoa. — Ele responde antes de sorver um belo gole do vinho.
            Bebo um pouco de vinho e fico pasma. Talvez o filho-da-puta realmente me ame.
—Eu te odeio. — Eu digo quase chorando. Ele franze o cenho sem entender nada. — Cara, só você é assim. Quando eu acho que não temos mais salvação você arruma um jeito de fazer tudo ficar bem. E tudo acontece de um jeito tão inocente que me derrete quando eu deveria ficar mais do que puta com você.
            —Esse é tipo de coisa que te deixa molhadinha? — Ele pergunta sorrindo. Eu sorrio junto mordendo o lábio.
            —Promete que nunca vai me deixar?
***
—Prometo. — Eu respondo de prontidão. Nunca fiz uma promessa tão honesta antes.
            Os olhos dela se enchem de lágrimas e ela se joga em mim, me abraçando com força.
***
            Ele me abraça de volta e eu sei que tudo, tudo vai ficar bem.
            Nós nos beijamos.

domingo, 3 de abril de 2011

8. O Cortês


Era um trabalho simples e limpo, o cliente me liga, marca um ponto, nos encontramos, eu vendo e vou embora. Sem armas, sem favela, tudo baseado na cordialidade entre vendedor e comprador.
            O chefe dizia que havia uma lista seleta de fregueses e que eu não deveria incluir mais nenhum nas vendas. Eu bem que tentei por um tempo, mas algumas pessoas não sabem o que “não” significa
            —Por favor, eu preciso de um fornecedor que seja confiável. — Ele me dizia todas as terças enquanto eu aguardava meu cliente no parque.
            —E eu com isso?
            —Dizem que você é um vendedor que eu posso confiar.
            —Não sou vendedor de nada, você deve ter me confundido com outra pessoa.
            —Por que você insiste nesse seu joguinho? Deixe-me ser seu comprador e eu te deixo em paz. — Devo admitir que eu me divertia muito com o sofrimento misturado com irritação e desespero dele.
            —Você não conhece meu chefe. — Eu dizia por fim antes de avistar meu cliente, correr até ele e colocar a mercadoria em seu bolso ao mesmo tempo em que pego o dinheiro. Era tudo extremamente discreto. Esse cliente comentou uma vez que eu tinha mãos tão leves que eu poderia seguir carreira como batedor de carteiras. Talvez eu ainda siga.
            Depois de alguns dias, falei com o chefe sobre o chato do parque.
            —Nem pensar! — Ele disse categoricamente. — Não sabemos a precedência desse sujeito, ele pode comprometer todo o empreendimento. Quem falou de você pra ele afinal?
            —Não tenho idéia, ele não disse.
            —Nem pensar! — Ele repetiu. — Os clientes devem passar pela minha aprovação antes de chegar a qualquer vendedor meu.
            Mas a minha conversa com o chefe não fez o chato desistir. Ele continuou indo ao parque todas as semanas. Um mês e meio se passou antes de eu finalmente explodir.
            —Chega! Porra! Não é possível que você precise tanto de erva! Toma essa merda! — Abri minha mochila e joguei dois pacotinhos na cara dele. — Agora some da minha frente!
            Mas ele não sumiu. Ao contrário, ficou parado e sorriu.
            —Não se mova — Ele disse e puxou uma arma do cós das calças. — Você está preso.

domingo, 27 de março de 2011

7. Redenção

Ele entrou no bar meio cambaleando, mas me pareceu um pouco ensaiado ou forçado. Ou os dois. Ele está abraçado a uma loira que tem cara de puta da Augusta. Pobre garota... Ele olha em volta e me vê, ele vem em minha direção.
            —Oi! — Ele diz com aquele sorriso besta na cara enquanto se senta ao meu lado no balcão.
            —Esse lugar está ocupado. — Eu digo sem olhar pra ele.
            —Jura? Quem vai comer meus restos hoje?
            Fico horrorizada por um segundo. Por mais grosseiro que ele fosse, eu nunca o havia visto desse jeito. Quando finalmente olho diretamente pra ele, vejo o pó branco ainda preso nas narinas dele e suas pupilas dilatadas.
            —Ah! Essa aí é aquela que você tanto fala? — A Loira pergunta.
            —É, é ela. Agora que eu a encontrei, pode vazar.
            —Como é? — Ela me pareceu genuinamente ofendida.
            —Você me ouviu. Desinfeta. — Ele diz sem tirar os olhos de mim.
            —Ela seu estepe ou algo do gênero? — Eu pergunto enquanto a Loira sai do bar com passos largos e nariz empinado.
            —Algo do gênero.
            Barba por fazer, coca nas narinas, hálito impregnado por café, cigarros e álcool. Ele sempre teve uma inclinação para a autodestruição, mas eu sempre achei que fosse mais uma pose do que algo concreto.
            —Voltou a usar? — Eu pergunto depois dele pedir uma bebida e apontando para o nariz dele.
            Ele permanece em silêncio por um tempo, bebe um pouco de seu Campari recém chegado com um olhar distante até finalmente se virar para mim.
            —Você estava blefando quando disse que esse lugar estava guardado, não estava?
            —Responde a minha pergunta e eu respondo a sua. — Eu retruco sem pensar muito.
            —O pó me ajuda a escrever, extrai minha inspiração.
            —Não parece estar funcionando, não vejo um texto seu há meses.
            —Talvez eu só não tenha te mostrado, baby.
            —Talvez você só não tenha escrito nada. — Eu dou mais um gole no meu Martini. — E sim, eu estava blefando.
            —Cadê aquele cara por quem você me trocou?
            Um frio percorre minha espinha. Eu sabia que iríamos chegar nesse ponto.
            —Se bem me lembro, foi você quem me abandonou. — Eu digo com vontade de chorar. Mas não vou chorar. Não vou dar esse gostinho a ele.
            —Touché. — Ele diz com um sorriso triste na cara antes de beber mais.
            —Ele me largou.
            —Já tentou ser a que chuta ao invés de ser a chutada?
            —É por comentários como esse que não estamos juntos.
            —Somado a sua falta de senso de humor e algumas ironias do destino.
            Ser abandonada do nada por tentar fazer dele uma pessoa melhor não é uma ironia do destino! Eu me seguro pra não verbalizar isso. O erro foi todo dele.
            —Sabe, ele me largou porque eu nunca superei sua perda. — Merda, eu não deveria ter dito isso. Agora ele vai ficar se achando o máximo. Mas não, ele não começa a se gabar, ele simplesmente diz:
            —E eu parei de escrever por ter perdido minha musa.
            Tenho que admitir que o idiota ainda sabe me agradar. Fedendo a álcool e travado de cocaína, ele sabe me agradar.
            —Olha, eu estou escrevendo um livro. Como nos velhos tempos. Algumas garrafas de vinho, cigarros, luz de velas, minha velha máquina de escrever e meus antigos...
            —... Discos de vinil do BB King e Ray Charles. — Eu digo completando a frase dele sem querer. Como antigamente.
            —Você ainda me conhece bem.
            —Você não mudou nada, cafajeste. Sobre o que é o livro?
            —Eu sempre disse que nossa história daria um livro, não é? Mas ainda falta um final sem pontas soltas.
            —Serve esse final? — Eu digo enquanto me aproximo de seu rosto. Nós nos beijamos. Um som de vidro quebrando toma conta do lugar. O som é seguido por gritos. O corpo do meu escritor cai na minha frente depois de nosso último beijo. A bala o perfurou no coração. No coração que pertencia a mim. Olho para os lados, ainda atordoada e vejo aquele por quem troquei meu escritor com a arma na mão, sendo imobilizado pelos seguranças. O livro foi concluído numa tragédia.

sábado, 19 de março de 2011

6. Rupinol


—E aí, vamos ou não? — Ela me pergunta como se não fosse importante. Talvez pra ela não seja, mas pra mim é.
            —Calma, to pensando ainda. — Eu retruco rispidamente.
            Ela olha em volta, me olha com um sorriso sedutor e me mostra seu mamilo esquerdo rapidamente.
            —Ok, vamos. — Não é assim que eu imaginava a minha primeira vez, mas eu to com pressa pra perder a virgindade.
            Andamos até a minha casa, me certifico de que não há ninguém lá e subimos para o meu quarto.
            —Que banheira grande você tem aqui. — Ela diz parando em frente ao banheiro do corredor.
            —É dos meus pais, a gente pode usar se quiser.
            —Veremos depois então. — Ela diz sorrindo e seguindo para o quarto.
            Entramos no quarto e ela me joga na cama com força e sobe em mim, me beijando violentamente.
            —Calma. — Ela para e se levanta. — Falta um drink pra você relaxar.
            Ela pega sua mochila de tira uma garrafa de Jack Daniel’s de dentro dela.
            —Seus pais não vão aparecer, né? — Ela pergunta enquanto eu bebo.
            —Não, eles estão viajando e só voltam semana que vem. Você não vai beber? — Eu pergunto ao vê-la guardando a garrafa.
            —Não, to tomando remédio e não posso tomar álcool.

***

            Frio. Muito frio.
            Abro os olhos com dificuldade, a luz branca e forte os perfura como agulhas prateadas. Milhões delas.
            Não sinto nada abaixo do pescoço. Estou na banheira dos meus pais, uma banheira entupida de gelo. Gelo e eu. Levanto-me com dificuldade e consigo sair da banheira, mas uma dor excrucitante atravessa meu tronco e me faz cair no chão molhado com um grito. Ainda estou de jeans, mas sem camisa, há uma cicatriz de uns 20 centímetros nas minhas costelas.
            Consigo me arrastar até o meu quarto e puxo o cobertor da cama para o chão. Uma folha cai junto e há algo escrito.
            “Bom dia, você foi drogado e um dos seus rins foi levado. Por sorte, você só precisa de um para sobreviver. Obrigado, gatinho.”
            Filha-da-puta.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

5. Novela, o câncer


Eu cresci em uma família de mulheres que assistem a novelas da Globo, no entanto, tenho ódio desse tipo de programa. A Globo tem uns 15 autores de novelas diferentes, três novelas por dia e ainda assim é tudo igual! Mocinho+mocinha+vilão+vilã = Mocinho quer mocinha, vilão se junta com vilã pra não deixar por algum motivo que ninguém nem lembra no meio da novela. Pronto, escrevi uma novela em duas linhas.
A verdade é que a novela é um atraso sócio-cultural. Não vou puxar saco dos EUA ou da Europa, vou relatar fatos. A indústria cinematográfica mais poderosa do mundo, está nos Estados Unidos, os filmes mais inteligentes vêm da Europa e o que fazemos aqui? Fazemos filmes medíocres com enredo de novela, escritos por escritores de novela, produzidos pela Globo e com atores de novela. Nossos filmes se resumem a novelas de duas horas. Os Tropas de Elite 1 e 2 não foram filmes tão bons quanto a mídia fez parecer, mas se compararmos com o resto das produções nacionais, são filmes quase hollywoodianos. Scorcese faz filmes de crime desde os anos 60. Isso tudo sem contar que nossos filmes só falam de pobreza, favela ou são comédias românticas com fórmulas que copiam filmes mais antigos.
Dito isso, e a nossa literatura? Quantos autores literários temos hoje em dia que podemos dizer: Oh! Esse cara escreve como ninguém! A literatura brasileira está estagnada em gente que morreu há mais de 100 anos. Escreveram clássicos, claro, não vou tirar o mérito deles, mas e depois? Agora imagine se um autor de novela canalizasse a criatividade num romance. Seria excelente, eu leria na hora. Mas não, estão mais preocupados em entreter velhas donas de casa todas as noites.
Aí você vem e fala: Ah, mas nos Estados Unidos eles têm novela também. Fato. Mas a prioridade deles não é essa, as produções são fraquíssimas, o horário é aquele em que ninguém vê e o foco deles é outro. Eles estão mais preocupados em fazer seriados, esses sim têm produção cara e bem feita e passam no horário nobre, atingindo um público enorme. A diferença entre novela e seriado é simples: seriados são inteligentes (salvo exceções), novelas não.
Não estou dizendo que o Brasil é um país de terceiro mundo porque temos novelas, mas digo que isso atrasa infinitamente a nossa cultura.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

4. Reflexos Apologéticos


Esse é o primeiro post que eu escrevo direto no blog, sem papel, sem caneta, sem Word, sem nada. Também é o primeiro em que falo sobre mim diretamente, sem metáforas em contos ou viagens imaginativas. Talvez seja o post mais odiado do blog, talvez a maioria já tenha parado de ler. Foda-se, esse post é mais pra mim do que pra qualquer outra pessoa. É algo que preciso externar de mim.
Acho que todos estão familiarizados com tristezas aparentemente sem motivo. Eu estou. Eu costumo ouvir música quando passo por isso, me ajuda a refletir melhor sobre o que me deixou pra baixo e geralmente são músicas relacionadas com o que eu sinto. Por exemplo, se estou ansioso ouço Patience do Guns, se estou puto, ouço qualquer coisa dos Sex Pistols e acho que deu pra pegar a ideia.
Mas dessa vez nenhuma música traduzia o que eu sentia. Eu apelei pras baladinhas românticas, amor isso, amor aquilo, amor perdido, amor reconquistado, amor pra porra. Nada. Eu não me identifiquei com nada. Até ouvir She Holds a Grudge do Jet e percebi que o que eu estava sentindo não era amor, não era saudade, não era ódio, não era depressão crônica. Era arrependimento, eu estava me identificando com as músicas que pedem desculpas. Por algum fator catalisador eu comecei a me arrepender de tudo que fiz de errado pra outras pessoas no passado (É bom frisar que falo de pessoas que não mereceram).
Quanto ao fator catalisador, talvez tenha sido o ano novo, sei lá, a entrada na faculdade, a saída do colégio, o começo de uma fase completamente nova. Não faz diferença, na verdade. Só sei que esse ano pretendo consertar o que dá pra consertar e poder seguir em frente em paz.
Se você leu até aqui, muito obrigado por aguentar. E uma dica: não prometa que vai ser uma pessoa melhor, simplesmente seja.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

3. Empate



Eram vizinhos, eram jovens, eram livres, cheios de sonhos, hormônios e de sexos opostos. Mas não se conheciam direito, se viam no elevador do prédio eventualmente, mas nunca passaram da trivialidade do “Oi, tudo bom?” e do “Ish, acho que vai chover hoje”.
            Ele vivia cada dia como se fosse seu último. Já tivera mais namoradas do que gostaria de admitir. Sempre foi fiel, mas quando ficava solteiro, tocava o puteiro, quase que literalmente. Conhecia a arte do xaveco e dificilmente passava um fim de semana sozinho. Tinha medo da solidão.
            Ela era diferente, seus cabelos e olhos cor de mel faziam parte de um rosto incrivelmente bem desenhado, nariz perfeito, sobrancelhas perfeitas, orelhas perfeitas, boca perfeita. Ela não curtia o queixo dela, mas tudo indica que ela era a única. Era dedicada, estudava muito e, ao contrário dele, pensava muito no futuro.
            Ela não sabia que ele ficava sem ar sempre que a via na garagem ou no saguão de entrada. Ele não sabia que ela também.

            No dia anterior ele havia comprado ingressos pro teatro, mas descobriu que sua namorada o traía com um cara que a amiga havia apresentado. Puta merda, ele sempre odiou aquela amiga. Foda-se, pensou.
            Ela entra no elevador, o ar sai na hora. Ela vê os ingressos e diz:
            —Vai ao cinema hoje?
            —Teatro. — Ele corrige tentando ser simpático, mas ainda está puto. — Eu ia, mas...
            —Furaram com você? — Ela interrompe bem-humorada.
            —É, pode-se dizer que sim. Escuta, você não tá afim de ir com seu namorado ou algo assim?
            —Eu não tenho namorado, bobo, mas chamo meu irmão. Brigada. — Ela diz sorrindo. Que sorriso...
            Ele entrega os ingressos e ela sai do elevador. Sai com um suspiro característico. Ela precisava de aparelhos respiratórios depois de vê-lo. E depois disso, sua paixonite só havia crescido, por mais que se achasse tola e iludida por isso.
            Ele respira fundo também, por um momento, o fato de ele ter sido corneado tão recentemente não importou mais. Mas os pensamentos voltaram e ele precisava de cromossomos XX pra ajudá-lo a se recuperar. Chega no boteco mais próximo e grita para o garçom:
            —Fábio, me manda aquela dose dupla de Jack Daniel’s, pelo amor de Deus.
            Uma voz familiar atrás dele comenta na hora.
—Dose dupla sempre significa que você está fugindo de algo.
Ele se vira e vê a Giovanna lá, tragando seu cigarro majestosamente e bebericando sua vodka.
—Vodka pura também não fica muito longe disso, Gi. E para de fumar, é muito broxante.

Ela assiste à peça, mas não consegue se concentrar. Ela só pensa nele e em como poderia agradecê-lo. O irmão, mais novo, Fernandinho, sai falante, comentando todos os detalhes do espetáculo, liga pra mãe pra contar tudo, sem paciência para esperar chegar em casa. Enfim, é o típico irmão mais novo pentelho.
Ela dirige seu Punto semi-novo pela cidade pensando nele e o vê saindo de um táxi em frente ao prédio com uma morena. Ambos bêbados.
—Puta merda. — Ela deixa escapar em voz alta enquanto manobra na garagem.
—O que foi? — Pergunta Fernandinho?
—Nada, você não entenderia.
Eles entram no elevador e encontram os dois. Ele abre um sorriso imenso (de bêbado, como ela pensa) e diz:
—Olá, moça bonita e garotinho... Chato. Gostaram da peça?
—Não vai apresentar sua amiga? — Ela diz secamente.
—Ah sim, que rude de minha parte. Essa daqui é a Giovanna, velha parceira de copo.
—Copos. — Corrige Giovanna. Os dois se olham e começam a rir.
O elevador para e os irmãos saem. Ao pisar dentro de casa, ela começa a chorar. Corre para o quarto e chora mais. Chora como se quisesse secar na hora.

—Amiga, você tem que pagar o cafajeste na mesma moeda! — Carla diz ao telefone com ela na manhã seguinte. Os olhos dela estão inchados e vermelhos e soluços ainda são reprimidos de vez em quando.
—Você quer que eu fique desfilando pelo prédio com um homem de aluguel? Além de ridículo, é capaz de ele nem ligar. — Ela responde.
—Custa tentar? Chama o Luis da outra sala, ele é gay mesmo, não tem risco. A não ser que ele também se apaixone pelo seu macho.
Ela dá sua primeira risada no que pareceu ser uma eternidade.

Ele acorda, toma dois comprimidos de Engov e nota que a Giovanna está nua na sua cama. Tenta lembrar como aconteceu. Sem sucesso. Pensa na vizinha. Quer sair com ela, ele está solteiro, ela está solteira. Por que não?
            —Gi, acorda, você tem que vazar. — Ele diz dando leves empurrõezinhos nas costas nuas dela.
            —Quero um beijo pra acordar. — Ela diz com aquela voz de zumbi sonolento.
            Ele dá um beijo na testa dela, ela se levanta sorrindo, se veste e sai. Os comprimidos não fazem efeito. Ele se deita e resolve dormir mais.

            —Luis, eu preciso da sua ajuda. — Ela diz na escola para o gay do terceiro ano e explica todo o seu drama com o vizinho.
            —Querida, se eu te ajudar, vai ter um bofe a menos no mercado. — Ele diz afetadamente.
            —Eu te pago.
            —E eu tenho cara de quem precisa de dinheiro? — Ele retruca. Realmente não tem.
            —O que você quer então, baitola?
            —Quero que você sonde o Jayme do segundo ano e veja se ele é gay, bi, curioso ou algo do gênero.
            —Fechado. Vamos pra casa.
           
            Ele acorda pela segunda vez no mesmo dia e vê que perdeu a hora da faculdade. Tudo bem, ele não precisa de nota. Pelo menos a ressaca passou. Ele pensa nela e percebe que é hora de agir, ela é especial. Passam-se alguns minutos enquanto ele ensaia o que dizer.
            Chega no hall do elevador e vê que está parado no andar dela. Maravilha, os pais dela estão trampando e o irmão ainda tá na escola. Só pode ser ela. Sozinha.
            Ele está nervoso, sente uma gota de suor se formando no topo de sua testa e seu dedo treme enquanto tenta mirar na campainha. Acerta. Os segundos se arrastam até que ele ouve a chave girando.
            A porta finalmente se abre e lá está ela. Seus olhos cor de mel reluzindo à luz de fim de tarde.
            —Oi — Ele diz um tanto quando hesitante. Ela acena com a cabeça pedindo-o para continuar. — Sabe... É... Eu... Eu andei pensando muito em você ultimamente. E... Assim... Eu meio que senti uma coisa muito boa entre nós, não sei explicar. O que acha que sairmos um dia desses? Ir ao cinema, teatro ou algo assim? Quero te conhecer melhor.
            —Eu também, inclusive... — Ela quer muito continuar, mas é interrompida pela voz do Luis, da cozinha.
            —Amor! Acabou a cerveja! — Ele diz tentando ao máximo esconder a voz afetada. Sem grande sucesso. — Opa, tudo bom? Sou o Luis, o namorado dela — Ele diz chegando à porta.
            —Oi. — Ele diz e se volta para ela. — Achei que você havia dito que não tinha namorado.
            Ela ia responder, mas ele se vira, entra no elevador e a porta se fecha. Ela ia dizer que não era o que ele estava pensando. Ia jogar o caso Giovanna da noite passada na cara dele. Ia dizer que estava apaixonada e que o Luis era gay e que estaria mais interessado nele do que nela.
            Mas ela não disse nada.

            —Empata o jogo, rapaz. — Diz Fábio, o garçom do boteco, sempre com palavras sábias, o maior conhecedor de filosofias de boteco que existe em São Paulo. — Olha lá — Ele diz apontando para uma mulher (falsa) ruiva fumando de pé, com meia arrastão, mini saia, salto plataforma e um top de couro. — Aquela lá é a Tiffany. Solteira e liberal.
            —“Liberal” é seu eufemismo pra puta, Fábio? — Ele diz enchendo seu décimo quarto ou vigésimo quarto copo de cerveja.
            —É, mas ela não cobra nada.
            Ele se levanta, vira o resto de cerveja, vai até a Tiffany, a pega pela mão e a beija. Maldito gosto de cigarro, ele pensa.
            —Eu moro naquele prédio da esquina, tá afim? — Ele diz e Tiffany assente.

            —Porra, Luis! — Ela grita, ainda em casa, para o amigo gay. — A gente não tinha combinado que eu iria dar o sinal na sua hora de entrar?
            —É — Ele diz com um sorrisinho cínico — Mas eu queria ver o circo pegar fogo.
            Ela chega perto dele e o soca no olho, fazendo-o cambalear para trás e o puxa pela camisa até a porta, ao abri-la para jogar o colega fora, a porta do elevador também se abre e seu vizinho sai com uma ruiva artificial vestida de puta. Pode até ser uma puta de verdade, ela pensa.
            —Oi! — Ele diz visivelmente bêbado de novo — Como eu conheci seu namorado hoje mais cedo, eu achei justo que você conhecesse minha namorada também, né?
            Luis vai saindo à francesa enquanto ele fala.
            —E qual é o nome dela? — Ela pergunta impacientemente olhando para Tiffany.
            —Ah sim, essa é a... a... calma... — Se vira para Tiffany. — Qual é mesmo seu nome, querida?
            —Tiffany — Ela responde rindo.
            —Ah, que belo nome! Diferente, hein! — Ela diz, mas é óbvio que acha que é um puta nome de puta. Vira-se para ele — Quero falar com você em particular. Vem cá. — E o puxa pela mão até o quarto.
            —Ah, finalmente vou conhecer seu quarto. — Ele diz enquanto vê o mundo girando ao seu redor.
            —É, olha o foco. Eu sei que aquela garota não é sua namorada, provavelmente você deve ter pago uns 80 reais lá na Augusta por ela.
            —Aí que você se engana. — Ele diz e sussurra no ouvido dela: — Foi de graça.
            —Tá, tanto faz. A questão é que o Luis também não é meu namorado.
            De repente a sobriedade começou a tomar conta dele e seu coração acelera.
            —Não? — Ele pergunta confuso.
            —Não... E, por mais ridículo que isso seja, ele é gay e eu estava usando ele para fazer ciúmes em você.
            —E eu usei a Tiffany para fazer ciúmes em você.
            —Eu percebi, por isso eu me abri com você. A gente ficaria nesse joguinho pra sempre!
            —Espera um pouco. — Ele diz indo até a porta do quarto. — Tiffany, meu bem, pode ir, eu vou ficar aqui por um tempo.
            —Que seja — Ela resmunga saindo do apartamento.
            Ele volta para perto dela e eles se sentam na cama.
Ele a beija.