A mesa redonda do bar estava rodeada de notívagos, todos camaradas, falantes e risonhos. Exceto pelo Moreno, mulato quietão, de braços cruzados, só observando e ouvindo, aparentemente, atentamente à conversa dos outros.
—Godard não é um gênio, ele só é bom de improviso! Gênios contam histórias, Scorcese sim é um gênio. — Disse um dos boêmios para quem quisesse ouvir.
—Seguindo essa lógica, Edgar Allan Poe era um péssimo poeta, já que suas poesias não tinham história. — Respondeu outro.
—Poesia não tem que ter história. — Retrucou o primeiro.
—Exato! E o Godard faz poesia audiovisual! — Disse uma garota entrando na conversa. — Tai um cara pra quem eu não daria. Godard.
—Pra quem você daria? — Perguntou o segundo.
—Jack Kerouac, deve ser pintudo e bom de pegada. — Ela responde sem um pingo de vergonha. Todos riem, até o Moreno.
Moreno, enfim, se manifestou e pediu mais uma cerveja pro garçom, atraindo a atenção do resto do grupo para ele.
—E você, Moreno, o que acha do Godard como cineasta?
—Acho porra nenhuma, bicho.
—Ih, ta de mau humor, Moreninho? — Perguntou a garota.
—Não, só acho o papo de vocês raso pra caralho.
—Como assim?
—Vocês ficam discutindo o cinema do Godard, a literatura do Allan Poe, a porra do tamanho da piroca do Kerouac, mas não se aprofundam em nenhum nesses assuntos. — Ele acende um cigarro e continua — Vocês querem falar de arte, mas a arte não é rasa assim, ela exige um conhecimento que nenhum de nós nessa mesa temos. Nenhum de nós tem repertório pra isso.
Ele dá mais um trago no cigarro e finaliza a cerveja do seu copo em um gole.
—Moreno, meu querido, você que ta complicando as coisas, nós não estamos num debate filosófico na Casa do Saber, é só um papo de bar.
Moreno enche seu copo e diz:
—Eu entendo seu lado, mas tem assuntos que são mais interessantes, mais profundos e mais apropriados pro ambiente.
—O que é profundo o suficiente pra você, Moreno? — Pergunta a garota sorrindo com os olhos.
Moreno dá uma longa tragada no cigarro, deixando uma reticência no ar e, por fim, diz:
—Boceta.