—Acende o cigarro pra mim, eu não sei usar esses seus isqueiros. — Ela diz me passando um Marlboro light.
Acendo e passo de volta pra ela. Ela ri pra mim e eu rio pra ela. Não dizemos nada por um tempo, só olhamos um para o outro. Ela fala finalmente.
—Esses momentos são raros.
—Que momentos? — Pergunto enquanto enrolo um cigarro pra mim.
—Esses momentos em que duas pessoas podem ficar em silêncio e esse silêncio não é constrangedor.
—Tem razão. — Eu digo distraído enquanto grudo a seda do cigarro com saliva. — Muito raros.
O silêncio volta a tomar conta do ambiente, o único som é do estralar das sedas dos cigarros e da respiração enquanto fumamos e soltamos fumaça, não tiramos os olhos um do outro. O silêncio pode ter durado horas, dias, anos... Para mim continuaria parecendo segundo. Mais uma vez, ela é a primeira a falar.
—Gosto disso.
—Do quê?
—De gente que olha nos olhos e não desvia o olhar.
Desvio o olhar sem querer.
—Você acabou de perder um pouco da graça. — Ela diz.
—Foi mal, não fiz de propósito.
—Eu sei. — Ela diz e sorri. Se vocês pudessem ver aquele sorriso... Minha casa nunca pareceu tão pequena como parecia perto daquele sorriso.
Os sons da cidade interrompem um novo silêncio, pneus cantando na rua, bêbados gritando, boêmios rindo, mas nada disso importa. A mão dela sob a minha, ambas geladas e úmidas pelas cervejas que segurávamos, faz tudo valer a pena. Os sons bizarros de São Paulo viram música para meus ouvidos.
Nossos rostos se aproximam, ela toma a iniciativa e me beija. Desnecessário dizer que eu retribuo de muito bom grado. Nos separamos, eu estou sorrindo que nem um idiota. Ela está simplesmente sorrindo.
—Foi mal. — Ela diz. — Não fiz de propósito.
—Eu sei. — Eu digo e sorrio.
Nos beijamos de novo. Dessa vez pelo resto da noite.