segunda-feira, 24 de outubro de 2011

18. Silêncio

—Acende o cigarro pra mim, eu não sei usar esses seus isqueiros. — Ela diz me passando um Marlboro light.
Acendo e passo de volta pra ela. Ela ri pra mim e eu rio pra ela. Não dizemos nada por um tempo, só olhamos um para o outro. Ela fala finalmente.
—Esses momentos são raros.
—Que momentos? — Pergunto enquanto enrolo um cigarro pra mim.
—Esses momentos em que duas pessoas podem ficar em silêncio e esse silêncio não é constrangedor.
—Tem razão. — Eu digo distraído enquanto grudo a seda do cigarro com saliva. — Muito raros.
O silêncio volta a tomar conta do ambiente, o único som é do estralar das sedas dos cigarros e da respiração enquanto fumamos e soltamos fumaça, não tiramos os olhos um do outro. O silêncio pode ter durado horas, dias, anos... Para mim continuaria parecendo segundo. Mais uma vez, ela é a primeira a falar.
—Gosto disso.
—Do quê?
—De gente que olha nos olhos e não desvia o olhar.
Desvio o olhar sem querer.
—Você acabou de perder um pouco da graça. — Ela diz.
—Foi mal, não fiz de propósito.
—Eu sei. — Ela diz e sorri. Se vocês pudessem ver aquele sorriso... Minha casa nunca pareceu tão pequena como parecia perto daquele sorriso.
Os sons da cidade interrompem um novo silêncio, pneus cantando na rua, bêbados gritando, boêmios rindo, mas nada disso importa. A mão dela sob a minha, ambas geladas e úmidas pelas cervejas que segurávamos, faz tudo valer a pena. Os sons bizarros de São Paulo viram música para meus ouvidos.
Nossos rostos se aproximam, ela toma a iniciativa e me beija. Desnecessário dizer que eu retribuo de muito bom grado. Nos separamos, eu estou sorrindo que nem um idiota. Ela está simplesmente sorrindo.
—Foi mal. — Ela diz. — Não fiz de propósito.
—Eu sei. — Eu digo e sorrio.
Nos beijamos de novo. Dessa vez pelo resto da noite.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Não Cabe em 140 Caracteres #1

É impressionante como a música nacional evoluiu nos últimos vinte e tantos anos, outro dia descobri um poeta chamado Michel Teló. Ele escreve magistralmente versos como estes:
Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego


Mas isso não é nada comparado com outro expoente da poesia musicada, o senhor Gusttavo Lima. Ele é o autor dos versos:
Tchê tcherere tchê tchê,
Tcherere tchê tchê,
Tcherere tchê tchê,
Tchereretchê
Tchê, tchê, tchê,
Gustavo Lima e você.


Com tanto intelecto, quase nos esquecemos daqueles péssimos letristas dos anos 80, uns tais de Titãs, por exemplo, escreviam letras fracas e sem significado como:
A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte


Ou o mundo não é mais tão inteligente ou eu é que sou burro pra caralho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

17. Todos Dizem Eu Te Amo


            Uma vez me disseram:
            —Eu te amo. — Olhei com uma cara surpresa. — Como amigo, claro. — A moça tentou consertar. Mas já era tarde, eu tava apaixonado também. Pena que durou pouco. Ela me amava, eu só estava apaixonado. A vida tem dessas coisas.
            Outro dia, foi o contrário, eu disse:
            —Eu te amo. — Não dá pra negar que fui egoísta, eu esperava da minha interlocutora a mesma reação que eu tive com a garota que me disse isso na primeira vez. Errei.
            —Olha, eu não te amo, eu só gosto muito de você, você é como um irmão pra mim. — Foi o que ela me disse. Fiquei só vontade.
            “Como um irmão pra mim” é a segunda pior coisa que se pode ouvir de alguém que se gosta.
            A moral dessa história? Nem sempre as pessoas agem da mesma forma que você agiria.

domingo, 2 de outubro de 2011

16. Observações


Observação nº1: Andar na chuva é subestimado, poucas pessoas entendem a chuva como um fenômeno amigo. Andar na chuva é como tomar um daqueles banhos reflexivos, só que ao ar livre. E de roupas, a menos que você queria ser preso.

Observação nº2: Não importa o quão fodida seja sua vida amorosa, você não pode provocar um cara sem futuras intenções só porque outro cara te provocou até te machucar, ok? Ok.

Observação nº3: Se você acha que clichês não existem na vida real, tente me olhar agora, com uma taça de vinho, um cigarro numa sala iluminada apenas por uma vela e a luz da tela do computador. Durma com esse barulho.

Observação nº4: Ando triste sem saber o motivo. Mentira, eu sei o motivo. O motivo é que eu sempre tenho dois caminhos certos pra tomar e sempre pego o caminho certo errado. Dá pra entender?