O cara me para na Av. Paulista com a Frei Caneca. Motoboy.
—Tá
descendo lá na Paim, muleque? — Ele pergunta com aquele sotaque de Zona Leste.
Eu normalmente não daria atenção, mas o álcool fala por mim.
—To sim, brother. — Eu respondo sem
parar de andar. — Você tem alguma coisa aí?
—Não
tenho, mas se tu me pagar adiantado eu posso ir lá pegar pra você. O que tu quer?
—20
reais em pó — Eu digo pegando a carteira e tirando o dinheiro. Ele olha dentro
da carteira e vê as notas de cem.
—Tu
tem grana pra mais, hein.
—Tenho,
mas não preciso de mais.
Ele
me acompanha até um canto escuro e me revela o que eu, no fundo, já sabia.
—Seguinte
cumpadi, eu tenho uma arma aqui e acho bom tu me passar essa grana toda aí ou leva
bala na cara e eu levo tudo assim mesmo.
Eu o
fito procurando a tal da arma, mas ele está com a mão no bolso. Eu sempre achei
que quando fosse assaltado eu sentiria um boost de adrenalina ou medo, mas eu
não senti nada. Simplesmente digo:
—Que
arma, parceiro? Ou você me mostra a tal da arma e leva a grana ou eu vazo com
tudo.
—Tu é
valente assim? Não preciso mostrar arma porra nenhuma, irmão. Passa tudo ou eu
atiro.
—Eu
não sou valente, você que é burro, cara. Você tem três opções; ou você me mostra
arma e você leva a grana, ou você mete uma bala em mim agora ou eu vazo e você
fica de boa na sua moto. Em duas delas você sai ganhando.
Ele
me encara por alguns segundos, tira a mão do bolso e não tem nada lá. Eu
deveria ter ficado aliviado, mas ainda não estou sentindo nada. Ele ri.
—Tu é
descrente, hein muleque? — Ele diz. — Gostei de você, é frio, é dos meus.
—Eu
não sou dos seus, se eu fosse dos seus eu não desperdiçaria minha vida fingindo
que tenho uma arma no bolso.
—Mas
tu desperdiça com droga? Tu é mais burro que eu, irmão. — Ele me diz dando um
tapinha na minha cara.
***
Conto
a história do quase assalto pra prostituta deitada do meu lado.
—Por
que você não tem uma namorada, por causa das drogas? — Ela pergunta.
—Como
assim?
—Você
é bonito, inteligente e bom de cama...
—Pelo
amor de deus. — Eu interrompo. — Eu aceito você fingir que goza, mas mentir
assim não vale, eu sei que é seu trabalho, mas juro que não precisa.
—Eu
acho que você é depressivo. Eu acho que no fundo, no fundo, você queria que
aquele cara tivesse te dado um tiro.
—Você
é psicóloga além de garota de programa?
Ela
ri. Esse é meu mundo, um mundo onde ladrões me dão lição de moral e putas me
analisam.
—Respondendo
sua pergunta, — eu digo — Eu não tenho namorada por causa da minha mania
irritante de afastar todo mundo que se importa comigo.
—É,
você deve ser depressivo.
Ponto
pra puta.