quarta-feira, 23 de maio de 2012

24. Ladrões e Putas


            O cara me para na Av. Paulista com a Frei Caneca. Motoboy.
            —Tá descendo lá na Paim, muleque? — Ele pergunta com aquele sotaque de Zona Leste.
            Eu normalmente não daria atenção, mas o álcool fala por mim.
            —To sim, brother. — Eu respondo sem parar de andar. — Você tem alguma coisa aí?
            —Não tenho, mas se tu me pagar adiantado eu posso ir lá pegar pra você.  O que tu quer?
            —20 reais em pó — Eu digo pegando a carteira e tirando o dinheiro. Ele olha dentro da carteira e vê as notas de cem.
            —Tu tem grana pra mais, hein.
            —Tenho, mas não preciso de mais.
            Ele me acompanha até um canto escuro e me revela o que eu, no fundo, já sabia.
            —Seguinte cumpadi, eu tenho uma arma aqui e acho bom tu me passar essa grana toda aí ou leva bala na cara e eu levo tudo assim mesmo.
            Eu o fito procurando a tal da arma, mas ele está com a mão no bolso. Eu sempre achei que quando fosse assaltado eu sentiria um boost de adrenalina ou medo, mas eu não senti nada. Simplesmente digo:
            —Que arma, parceiro? Ou você me mostra a tal da arma e leva a grana ou eu vazo com tudo.
            —Tu é valente assim? Não preciso mostrar arma porra nenhuma, irmão. Passa tudo ou eu atiro.
            —Eu não sou valente, você que é burro, cara. Você tem três opções; ou você me mostra arma e você leva a grana, ou você mete uma bala em mim agora ou eu vazo e você fica de boa na sua moto. Em duas delas você sai ganhando.
            Ele me encara por alguns segundos, tira a mão do bolso e não tem nada lá. Eu deveria ter ficado aliviado, mas ainda não estou sentindo nada. Ele ri.
            —Tu é descrente, hein muleque? — Ele diz. — Gostei de você, é frio, é dos meus.
            —Eu não sou dos seus, se eu fosse dos seus eu não desperdiçaria minha vida fingindo que tenho uma arma no bolso.
            —Mas tu desperdiça com droga? Tu é mais burro que eu, irmão. — Ele me diz dando um tapinha na minha cara.

***

            Conto a história do quase assalto pra prostituta deitada do meu lado.
            —Por que você não tem uma namorada, por causa das drogas? — Ela pergunta.
            —Como assim?
            —Você é bonito, inteligente e bom de cama...
            —Pelo amor de deus. — Eu interrompo. — Eu aceito você fingir que goza, mas mentir assim não vale, eu sei que é seu trabalho, mas juro que não precisa.
            —Eu acho que você é depressivo. Eu acho que no fundo, no fundo, você queria que aquele cara tivesse te dado um tiro.
            —Você é psicóloga além de garota de programa?
            Ela ri. Esse é meu mundo, um mundo onde ladrões me dão lição de moral e putas me analisam.
            —Respondendo sua pergunta, — eu digo — Eu não tenho namorada por causa da minha mania irritante de afastar todo mundo que se importa comigo.
            —É, você deve ser depressivo.
            Ponto pra puta.

sábado, 5 de maio de 2012

23. Só Mais Um


             No começo era tranquilo, eu sei que todo nóia diz que pode parar quando quiser, mas ele realmente podia. Começamos a cheirar juntos, quando tínhamos uns 17 anos. Na hora parecia uma puta ideia bacana, como toda ideia estúpida de adolescente. Já fumávamos um baseado ou outro de vez em quando, então por que não ir mais longe?
            Não me lembro de quem foi a ideia, não sei se é relevante, se vale a pena culpar alguém. Aparentemente, pra família dele, vale a pena me culpar, mas é mais do que compreensível. Compreensível, mas fica chato ter que encarar os olhares tortos aqui, agora.
Agora. Intervenção. Meu coração para por um instante. Não sei se você já participou de uma intervenção, mas espero que nunca precise. É quando você percebe o quão fodido o seu amigo está, o quanto ele depende de todo o apoio do mundo.
Ele entra cambaleante na sala onde estamos, eu corro e o ajudo a se sentar no sofá.
—Você vai pra reabilitação em dois dias. — Sua mãe diz sem olhar pra ele, dá pra ver todo o esforço que ela faz para não chorar. Admiro isso nela, ela é uma mulher forte.
—Reabilitação pra quê? — Ele pergunta incrédulo. Negação é sempre a primeira fase de tudo na vida. Desde término de namoro até problema com drogas.
—Cara, sua pupila tá maior que seu olho e tem estado assim há dias. — Eu digo.
—Quem é você pra falar de pupila comigo? Você usava tanto quanto eu.
—Usava quando você dava um tiro a cada três meses e eu já estou limpo há mais de um ano. — Eu digo mais pra família dele do que pra ele. Tá na hora deles verem que eu não sou o vilão.
Ele olha pro chão por alguns segundos. Ele chora. Nunca tinha o visto chorar antes, um arrepio toma conta de mim e tenho vontade de chorar com ele, mas acho que agora é a hora de ser forte por nós dois.
O silencio é desesperador, a tensão na sala é tão pesada que quase dá pra senti-la esmagando meu corpo no chão. ALGUÉM DIZ ALGUMA COISA! Qualquer coisa, eu não consigo me mexer!
—O que acontece agora? — O pai dele diz. — Digo, ele ainda tem dois dias, como vai ser?
—Não sei. — Diz a mãe. — Acho que ele devia ficar no quarto dele, preso até ir para a clínica.
—Não! — Ele grita. — Se eu for ficar com alguém, não vai ser com vocês.
Os pais me olham. O olhar quase me deixa ouvir o que eles estão pensando. A dúvida pairando no ar, minha casa é o melhor lugar pra ele ou eu vou foder tudo?
—Filho, a gente te ama e te apoia, mas... — Começa o pai.
—Não! — Ele interrompe. — Ou eu fico com ele ou eu não piso na clínica.
É o tipo de chantagem que não dá pra dizer não, principalmente vindo do próprio filho.
Entramos no meu carro.
—Você vai me dar mais um tiro antes de eu ir, não vai? — Ele me pergunta.
Eu rio, rio mesmo sabendo que ele está falando sério.
—Não ria. Eu sei que você não me negaria o último desejo de um moribundo.
—Cara, você não tem condições de cheirar nem um grão de pó a mais.
Ele não emite mais um único som até chegarmos em casa. Ele vai direto para o quarto de hóspedes e se tranca lá.
O pedido dele, por mais sem noção que pareça, faz sentido. Faz sentido pra um viciado, pelo menos.
As primeiras 24h de abstinência são as piores e com ele não foi diferente. Ele sua e se contorce na cama, gritando, presenciando todos os tipos de pesadelos lúcidos que a mente humana é capaz de criar. Não consegue comer ou tomar água, a dor interna é grande demais.
—SÓ MAIS UM, PELO AMOR DE DEUS! — Ele grita quando entro no quarto para trocar os baldes de vômito, merda e mijo ao lado da cama.
É fácil pra um professor de faculdade esquerdista e revolucionário falar de ética e moral quando não é ele lidando com o melhor amigo na pior situação que um homem pode passar. Não é ele limpando o vômito espalhado pelo chão enquanto outro ser humano grita e se contorce do lado.
Só mais um.
Só mais UM!
SÓ MAIS UM, CARALHO!
Os gritos não saem da minha cabeça.
Na manhã seguinte, depois de uma noite insone devido aos gritos e minha própria angústia interna, ligo pro meu antigo contato, compro a porra do pó e jogo na mesa da minha sala.
Ele voa na pilha de pó como um animal e eu fico enojado. Enojado com ele, com a droga, com a minha decisão de merda. Quando ele está prestes a meter o nariz na coca, eu o puxo pelo colarinho e ele voa pra parede. Os olhos dele me perfuram com um ódio que eu nunca vi em ninguém antes. Ele pula em mim, me derruba no chão e esmurra minha cara contra o chão.
Tudo está embaçado.
Tudo está em dobro.
Me esforço pra levantar, mas é tarde. A pilha se foi.
O corpo se debate, a espuma sai pela boca, o pó cobre o nariz.
O corpo se debate.
O corpo para.
O corpo para, a culpa não.