sexta-feira, 10 de agosto de 2012

28. O Hotel

                 Ela deve ser louca. Não do tipo ruim, claro, já tive minha cota de loucas por uma vida inteira. Louca do tipo sem papas na língua ou vergonha na cara, do tipo que fala o que quer, quando quer, pra quem quiser ouvir. Na verdade essa é a definição de loucura é da sociedade, não minha. Se isso é ser louco, tem gente normal demais por aí. O mundo precisa de mais loucos como ela.
            Olha ela, dançando com seu cigarro e sua cerveja, seus cabelos ruivos flutuando em slow-motion no ritmo da música nesse bar que cheira a óleo e mijo. Até num lugar escroto como esse ela consegue mostrar que tem groove.
            Não resisto e a beijo, sinto seu hálito de tabaco e cevada. Hálito que meu cérebro já está condicionado a associar com sexo. Talvez eu não consiga seduzir uma garota sóbria, talvez eu simplesmente não conheça alguma.
            O importante é que ela me beija de volta de uma forma que poucas sabem fazer. Logo nossas pernas estão entrelaçadas, nossas bocas fundidas e nossa respiração fumega com o calor quase que febril dos nossos corpos.
            Antes que eu me dê conta, estou alinhando carreiras de pó no lombo dela enquanto ela aguarda pacientemente de quatro e seminua em cima de uma cama de hotel vagabundo na Augusta.
            O sexo que segue me esgota e durmo logo depois de gozar, caindo feito um cadáver na cama dura.
            Acordo sozinho e com a ressaca que só a mistura de cocaína com álcool pode proporcionar. Reúno forças para me levantar e me visto. Minha carteira sumiu. Óbvio.
            Desço silenciosamente para a recepção do hotel e não há ninguém lá. Corro até a porta e descubro que está trancada.
            —Já vai, amigo? — Diz uma voz grave atrás de mim. Olho a origem da pergunta e vejo um homem negro enorme, quase uma caricatura do Michael Clarke Duncan.
            —Eu? Não! É que a garota que estava comigo levou minha carteira, eu só ia sacar uma grana no banco pra te pagar. — Eu digo sem conseguir respirar direito.
            —Como vai sacar dinheiro sem cartão? — Ele pergunta com um sorriso sádico no rosto.
            —Moro aqui perto, vou lá em casa pegar um cartão de emergência.
            O sorriso dele abre ainda mais numa gargalhada. Ele ri como se eu tivesse contado a melhor piada do mundo. Não sei se é certo rir junto, mas acabo rindo de nervosismo.
            —Se é assim, tudo bem. — Ele diz entre risadas.
            —Mesmo? — Eu digo virando de volta pra porta.
            —Não. — Ele responde dando fim à risada. Sua mão de gigante me puxa pelo colarinho e me joga numa poltrona grudenta da recepção. Tento não pensar na origem daquele grude.
            Seu punho pesado despenca na minha cara fazendo sangue voar da minha boca. A dor me atordoa, mas pelo menos eu não sinto mais a ressaca.
            Ainda não consigo tirar esse grude nojento da minha cabeça. Quero ficar longe disso o mais rápido possível.
            —Gostei do teu jeans. — Ele diz enquanto checo se minha mandíbula está inteira.
            —Valeu. — Eu respondo.
            —Passa pra mim.
            —Nem fodendo, tá um frio do caralho lá fora!
            O gigante levanta o punho, apontando-o para meu nariz.
            —Ok, pode levar. — Eu digo antes de ter a cara desfigurada.
            Tiro as calças e ele me deixa ir. A dor do soco se mistura à ressaca e ao frio insuportável nas pernas enquanto eu caminho pra casa na manhã nublada e úmida em meio aos trabalhadores matutinos que riem da minha desgraça. Foda-se.
            Chego em casa sem conseguir sentir minhas pernas. Visto um moletom e caio no sofá com um saco de gelo no rosto.
            Mal tenho tempo de ligar a TV, pois a campainha toca. Puta que pariu. Às sete da manhã de sábado é sacanagem.
            Abro a porta e lá está a minha ladra. Ela me entrega a carteira e vai embora sem dizer uma única palavra.
            —Posso te ver de novo? — Eu pergunto antes que ela entre no elevador.
            Ela sorri e a porta se fecha.