quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Casa nova

Seguinte, o Blogger não está me ajudando a evoluir por vários motivos, um deles é que eu evoluí como pessoa, mas esse site não me acompanhou, então parti pro Wordpress, aonde tenho mais liberdade, um visual mais "clean", como as pessoas tem dito, e um método de divulgação infinitamente mais eficiente. Afinal, ninguém vive de arte, eu escrevo pra ser lido, publicar um livro, ficar rico e passar o rodo nas famosas na Ilha de Caras.

Sendo assim, aqui está o endereço novo, com a cara nova e o mesmo conteúdo boca-de-lixo de sempre. SIGAM-ME!

http://conflitosescritos.wordpress.com/

terça-feira, 20 de novembro de 2012

29. Salasanguerisadas


O sangue está em todo lado, no chão, nas paredes e até um pouco no teto, mas, principalmente, em mim. Minhas roupas enxarcadas deste líquido vermelho grudam no meu corpo como um parasita.

O cheiro. Ninguém nunca fala do cheiro de sangue quando o descreve. Um odor que me faz querer vomitar minha própria alma, mas ao mesmo tempo me traz uma certa paz, uma paz estranha, uma paz que ninguém deveria sentir em sã consciência.

Olho em volta, procurando algo que me faça ter uma reação. Nada. Continuo paralizado no meio dessa sala desconhecida, coberto por um sangue que não é meu e que sou ignorante à origem.

Finalmente corro até a porta, somente para descobrir que ela está trancada.

“Tolo.” diz uma voz saída de não sei aonde. “Pra que a pressa?”

Eu realmente não sei responder a essa pergunta. Pra que a pressa? Para onde vou?

“Quem é?” Pergunto. Sem resposta.

“De quem é esse sangue todo?” Eu grito enfim.

“Seu.”

Olho para meu corpo e vejo que ele continua saindo de mim, sem parar. Mas não sinto dor, não sinto nada. O sangue sai dos meus poros, não de cortes ou feridas.

Minha visão fica avermelhada e percebo que o sangue começa sair dos meus olhos também. Caio de joelhos no chão. Grito por socorro. Ouço risadas distantes.

***

Acordo na minha cama. Sem sangue, sem sala avermelhada. Tudo normal. Uma garota semi-nua aparece no meu quarto.

“Você teve um pesadelo?” Ela pergunta se sentando na cama.

“Pode-se dizer que sim.” Eu digo me levantando e acendendo um cigarro.

Era tão estupidamente real. O sangue grudado na minha pele, o cheiro, a voz...

A garota cujo nome eu não me lembro se despede e a porta se fecha atrás dela. Abro minha garrafa de Jack e dou uns goles. Funciona. O sonho some da minha memória. A rotina segue trabalho, almoço, trabalho, jantar, bar, cama.

***

Sala desconhecida, sangue saindo de mim, jorrando para todos os lados, risadas.

***

Acordo. Minha cama. Sozinho. Acendo um cigarro. Jack Daniel’s. Rotina. Mas dessa vez o sonho não sai da minha cabeça. Olho para a cor vermelha e os arrepios tomam conta de mim. Nessa noite eu não durmo.

Vou pro meu bar de sempre e peço um negroni.

“Me paga um drink, gato?” Diz a garota que acordou comigo no outro dia, se aproximando de mim.

“Um cosmopolitan pra garota.” Eu digo para o barman enquanto ela acende seu cigarro.

“Como vão seus sonhos?” Ela pergunta enquanto sorvo meu negroni. Meu coração dispara ao ver o 
vermelho da bebida. O copo cai no chão.

“Você tá bem?” Ela pergunta. “Você está enxarcado de suor!”

“Com licença.” Eu digo indo para o banheiro, onde vomito até o meu âmago.

Vou para casa com 10 latas de energético. Não dormirei hoje.

Amanhece.

A tela do computador do trabalho começa a ficar fora de foco. Caio no teclado.

***

Sala. Sangue. Risadas.

***

Acordo com o meu chefe me balançando com força.

“Cara, você apagou do nada? Tá tudo bem?” Ele me pergunta.

“Não.” Eu respondo.

“Vai pra casa descansar.”

Saio do trabalho e ando a esmo pela rua. A última coisa que eu quero é descansar.

***

O mesmo sonho. De novo e de novo e de novo e de novo.

***

Acordo depois do mesmo sonho acontecer pelo segundo mês consecutivo. Vou até o metrô. Pulo na frente do trem. Tudo fica escuro.

***

Estou numa sala cheia de sangue, o sangue vem de mim.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

28. O Hotel

                 Ela deve ser louca. Não do tipo ruim, claro, já tive minha cota de loucas por uma vida inteira. Louca do tipo sem papas na língua ou vergonha na cara, do tipo que fala o que quer, quando quer, pra quem quiser ouvir. Na verdade essa é a definição de loucura é da sociedade, não minha. Se isso é ser louco, tem gente normal demais por aí. O mundo precisa de mais loucos como ela.
            Olha ela, dançando com seu cigarro e sua cerveja, seus cabelos ruivos flutuando em slow-motion no ritmo da música nesse bar que cheira a óleo e mijo. Até num lugar escroto como esse ela consegue mostrar que tem groove.
            Não resisto e a beijo, sinto seu hálito de tabaco e cevada. Hálito que meu cérebro já está condicionado a associar com sexo. Talvez eu não consiga seduzir uma garota sóbria, talvez eu simplesmente não conheça alguma.
            O importante é que ela me beija de volta de uma forma que poucas sabem fazer. Logo nossas pernas estão entrelaçadas, nossas bocas fundidas e nossa respiração fumega com o calor quase que febril dos nossos corpos.
            Antes que eu me dê conta, estou alinhando carreiras de pó no lombo dela enquanto ela aguarda pacientemente de quatro e seminua em cima de uma cama de hotel vagabundo na Augusta.
            O sexo que segue me esgota e durmo logo depois de gozar, caindo feito um cadáver na cama dura.
            Acordo sozinho e com a ressaca que só a mistura de cocaína com álcool pode proporcionar. Reúno forças para me levantar e me visto. Minha carteira sumiu. Óbvio.
            Desço silenciosamente para a recepção do hotel e não há ninguém lá. Corro até a porta e descubro que está trancada.
            —Já vai, amigo? — Diz uma voz grave atrás de mim. Olho a origem da pergunta e vejo um homem negro enorme, quase uma caricatura do Michael Clarke Duncan.
            —Eu? Não! É que a garota que estava comigo levou minha carteira, eu só ia sacar uma grana no banco pra te pagar. — Eu digo sem conseguir respirar direito.
            —Como vai sacar dinheiro sem cartão? — Ele pergunta com um sorriso sádico no rosto.
            —Moro aqui perto, vou lá em casa pegar um cartão de emergência.
            O sorriso dele abre ainda mais numa gargalhada. Ele ri como se eu tivesse contado a melhor piada do mundo. Não sei se é certo rir junto, mas acabo rindo de nervosismo.
            —Se é assim, tudo bem. — Ele diz entre risadas.
            —Mesmo? — Eu digo virando de volta pra porta.
            —Não. — Ele responde dando fim à risada. Sua mão de gigante me puxa pelo colarinho e me joga numa poltrona grudenta da recepção. Tento não pensar na origem daquele grude.
            Seu punho pesado despenca na minha cara fazendo sangue voar da minha boca. A dor me atordoa, mas pelo menos eu não sinto mais a ressaca.
            Ainda não consigo tirar esse grude nojento da minha cabeça. Quero ficar longe disso o mais rápido possível.
            —Gostei do teu jeans. — Ele diz enquanto checo se minha mandíbula está inteira.
            —Valeu. — Eu respondo.
            —Passa pra mim.
            —Nem fodendo, tá um frio do caralho lá fora!
            O gigante levanta o punho, apontando-o para meu nariz.
            —Ok, pode levar. — Eu digo antes de ter a cara desfigurada.
            Tiro as calças e ele me deixa ir. A dor do soco se mistura à ressaca e ao frio insuportável nas pernas enquanto eu caminho pra casa na manhã nublada e úmida em meio aos trabalhadores matutinos que riem da minha desgraça. Foda-se.
            Chego em casa sem conseguir sentir minhas pernas. Visto um moletom e caio no sofá com um saco de gelo no rosto.
            Mal tenho tempo de ligar a TV, pois a campainha toca. Puta que pariu. Às sete da manhã de sábado é sacanagem.
            Abro a porta e lá está a minha ladra. Ela me entrega a carteira e vai embora sem dizer uma única palavra.
            —Posso te ver de novo? — Eu pergunto antes que ela entre no elevador.
            Ela sorri e a porta se fecha.

terça-feira, 10 de julho de 2012

27. Terrivelmente Bom


O elevador pára. Viro-me para a porta e a vejo entrar. O ar vai embora. É sempre assim. Não consigo respirar direito quando ela se aproxima.
            —Oi. — Ela diz com um sorriso.
            —Olá. — Eu respondo tentando sorrir também. Sem sucesso.
            O ar vai embora aos poucos dos meus pulmões. Preciso engolir em seco. Mas não posso. Isso é sinal de tensão. Tenho que parecer relaxado. Engulo em seco. O elevador não chega nunca. Os segundos viram horas. Dias.
            A gente deve morar no mesmo prédio há mais de 10 anos. Ainda assim eu fico tenso ao encontrá-la no elevador. Ainda assim eu nem imagino qual seja o nome dela.
            Hoje. Hoje eu descubro. Eu preciso saber. Mas preciso tomar coragem antes. Respiro fundo. Abro a boca para falar.
            —Você toca numa banda, não toca? — Ela pergunta antes que eu possa reproduzir algum som. Merda.
            —Toco. — Eu respondo friamente. Não por antipatia. Mas por não conseguir pensar direito. As palavras simplesmente saem nessas horas. O ar ainda não preencheu meus pulmões.
            Tá. Vou tentar de novo. Respiro fundo. Olho para ela. Ela está sorrindo para mim. O sorriso dela me desarma. O sorriso dela congela minhas veias. Eu quase posso sentir meu coração parar por uma fração de segundo.
            É uma sensação péssima. Mas é muito bom.
            —Qual é o seu nome? — Eu pergunto me espantando com minha própria falta de sutileza. Eu praticamente vomito as palavras. O elevador pára. Não. Não agora. Eu. Preciso. Saber.
            Ela me olha e sorri. Olha para a porta e a empurra. Vira-se pra mim e diz. Ainda sorrindo:
            —Acho que essa resposta vai ficar pro próximo passeio.

domingo, 8 de julho de 2012

26. Além de Tudo


Acordo e aqui está ela, dormindo do meu lado, do jeito em que eu a deixei ontem à noite, nua e cheirando a whisky de segunda, a diferença é que ontem ela era mais bonita. Bem mais bonita.
Odeio isso. Antigamente as pessoas tinham a educação de sair silenciosamente antes que o dono da cama acordasse. Só falta ela querer café da manhã.
Visto minha cueca e acendo um cigarro, talvez assim ela acorde e vá embora.
Ela acorda.
—Posso pegar um? — Ela diz esfregando os olhos e apontando pro maço.
Não.
—Pode. — Eu respondo passando o isqueiro.
—Aumenta um pouco o som. — Ela diz e eu percebo que o B.B. King ainda está tocando no computador desde ontem, a Lucille deve estar quase sem cordas já.
Puta garota folgada. Não mexo um músculo, quem sabe se eu me fingir de morto ela desiste e vai embora. Ela se levanta da cama, me dando esperanças, mas só aumenta o volume e volta pra cama.
—Mais uma rodada? — Ela diz pegando no meu pau, felizmente derrubado de exaustão.
—Melhor não, vai que você gosta e resolve ficar mais. — Eu respondo.
Ela ri como se eu estivesse brincando.
—Tem alguma coisa pra comer?
Era só o que me faltava...
—Não. — Eu digo colocando as roupas dela na cama. — Melhor você ir embora antes que a minha mulher chegue.
—Você é casado?
Se eu fosse casado, eu teria uma cama de solteiro, caralho?
—Sou.
Ela ri de novo. Puta risada irritante. A ressaca não ajuda em picas.
—Me diz que você não gostou de me ter aqui.
Além de tudo ela é comediante.
—O certo é “ter-me”. — Eu digo.
—Eu sei, é porque parece com meter e...
—É. — Eu interrompo. — Eu sei com o que parece.
Ela se veste em silêncio. Ah, o precioso silêncio... Levo-a até a porta.
—Devíamos repetir a dose algum dia. — Ela diz antes que eu fechasse a porta.
Além de tudo ela é comediante...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

25. Convites Antigos Num Mundo Moderno


Lá está ela, absolutamente linda, sorrindo como se a vida fosse uma eterna brincadeira. Eu sonho com os lábios desse sorriso se juntando aos meus lábios nervosos e trêmulos.
Respiro fundo e chego perto dela, ensaiando mentalmente cada palavra.
            —Oi, eu... Tava pensando se... Você não gostaria de ir em casa uma tarde dessas pra, sei lá, ouvir uns CDs. — Eu digo, quase sem ar. É, talvez tenha faltado ensaio.
            Ela ri, ri aquele sorriso que faz tudo em volta ficar insignificante.
            —Por que eu iria até a sua casa ouvir um CD se eu posso baixar na internet? — Ela responde entre risadas.
            Pleno século XXI e eu a chamando pra ouvir CD em casa, lá se foi a minha investida favorita. Eu podia ter a chamado pra tomar um café, pra ir ao cinema... Mas não, chamei pra fazer a única coisa que não se faz mais hoje em dia.
            —Olha, eu entendo que você possa ouvir o disco que você quiser de graça na sua casa. — Eu digo tentando me salvar. — Mas na minha casa você pode ouvir o disco que você quiser de graça e ainda terá companhia, talvez com uma cerveja e um cigarrinho e com certeza um bom papo.
           Eu honestamente não sei de onde saiu essa eloquência. Ela me olha espantada por um tempo e depois sorri, me fita da cabeça aos pés e diz, olhando nos meus olhos, congelando o meu sangue:
            —Você mora longe?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

24. Ladrões e Putas


            O cara me para na Av. Paulista com a Frei Caneca. Motoboy.
            —Tá descendo lá na Paim, muleque? — Ele pergunta com aquele sotaque de Zona Leste.
            Eu normalmente não daria atenção, mas o álcool fala por mim.
            —To sim, brother. — Eu respondo sem parar de andar. — Você tem alguma coisa aí?
            —Não tenho, mas se tu me pagar adiantado eu posso ir lá pegar pra você.  O que tu quer?
            —20 reais em pó — Eu digo pegando a carteira e tirando o dinheiro. Ele olha dentro da carteira e vê as notas de cem.
            —Tu tem grana pra mais, hein.
            —Tenho, mas não preciso de mais.
            Ele me acompanha até um canto escuro e me revela o que eu, no fundo, já sabia.
            —Seguinte cumpadi, eu tenho uma arma aqui e acho bom tu me passar essa grana toda aí ou leva bala na cara e eu levo tudo assim mesmo.
            Eu o fito procurando a tal da arma, mas ele está com a mão no bolso. Eu sempre achei que quando fosse assaltado eu sentiria um boost de adrenalina ou medo, mas eu não senti nada. Simplesmente digo:
            —Que arma, parceiro? Ou você me mostra a tal da arma e leva a grana ou eu vazo com tudo.
            —Tu é valente assim? Não preciso mostrar arma porra nenhuma, irmão. Passa tudo ou eu atiro.
            —Eu não sou valente, você que é burro, cara. Você tem três opções; ou você me mostra arma e você leva a grana, ou você mete uma bala em mim agora ou eu vazo e você fica de boa na sua moto. Em duas delas você sai ganhando.
            Ele me encara por alguns segundos, tira a mão do bolso e não tem nada lá. Eu deveria ter ficado aliviado, mas ainda não estou sentindo nada. Ele ri.
            —Tu é descrente, hein muleque? — Ele diz. — Gostei de você, é frio, é dos meus.
            —Eu não sou dos seus, se eu fosse dos seus eu não desperdiçaria minha vida fingindo que tenho uma arma no bolso.
            —Mas tu desperdiça com droga? Tu é mais burro que eu, irmão. — Ele me diz dando um tapinha na minha cara.

***

            Conto a história do quase assalto pra prostituta deitada do meu lado.
            —Por que você não tem uma namorada, por causa das drogas? — Ela pergunta.
            —Como assim?
            —Você é bonito, inteligente e bom de cama...
            —Pelo amor de deus. — Eu interrompo. — Eu aceito você fingir que goza, mas mentir assim não vale, eu sei que é seu trabalho, mas juro que não precisa.
            —Eu acho que você é depressivo. Eu acho que no fundo, no fundo, você queria que aquele cara tivesse te dado um tiro.
            —Você é psicóloga além de garota de programa?
            Ela ri. Esse é meu mundo, um mundo onde ladrões me dão lição de moral e putas me analisam.
            —Respondendo sua pergunta, — eu digo — Eu não tenho namorada por causa da minha mania irritante de afastar todo mundo que se importa comigo.
            —É, você deve ser depressivo.
            Ponto pra puta.

sábado, 5 de maio de 2012

23. Só Mais Um


             No começo era tranquilo, eu sei que todo nóia diz que pode parar quando quiser, mas ele realmente podia. Começamos a cheirar juntos, quando tínhamos uns 17 anos. Na hora parecia uma puta ideia bacana, como toda ideia estúpida de adolescente. Já fumávamos um baseado ou outro de vez em quando, então por que não ir mais longe?
            Não me lembro de quem foi a ideia, não sei se é relevante, se vale a pena culpar alguém. Aparentemente, pra família dele, vale a pena me culpar, mas é mais do que compreensível. Compreensível, mas fica chato ter que encarar os olhares tortos aqui, agora.
Agora. Intervenção. Meu coração para por um instante. Não sei se você já participou de uma intervenção, mas espero que nunca precise. É quando você percebe o quão fodido o seu amigo está, o quanto ele depende de todo o apoio do mundo.
Ele entra cambaleante na sala onde estamos, eu corro e o ajudo a se sentar no sofá.
—Você vai pra reabilitação em dois dias. — Sua mãe diz sem olhar pra ele, dá pra ver todo o esforço que ela faz para não chorar. Admiro isso nela, ela é uma mulher forte.
—Reabilitação pra quê? — Ele pergunta incrédulo. Negação é sempre a primeira fase de tudo na vida. Desde término de namoro até problema com drogas.
—Cara, sua pupila tá maior que seu olho e tem estado assim há dias. — Eu digo.
—Quem é você pra falar de pupila comigo? Você usava tanto quanto eu.
—Usava quando você dava um tiro a cada três meses e eu já estou limpo há mais de um ano. — Eu digo mais pra família dele do que pra ele. Tá na hora deles verem que eu não sou o vilão.
Ele olha pro chão por alguns segundos. Ele chora. Nunca tinha o visto chorar antes, um arrepio toma conta de mim e tenho vontade de chorar com ele, mas acho que agora é a hora de ser forte por nós dois.
O silencio é desesperador, a tensão na sala é tão pesada que quase dá pra senti-la esmagando meu corpo no chão. ALGUÉM DIZ ALGUMA COISA! Qualquer coisa, eu não consigo me mexer!
—O que acontece agora? — O pai dele diz. — Digo, ele ainda tem dois dias, como vai ser?
—Não sei. — Diz a mãe. — Acho que ele devia ficar no quarto dele, preso até ir para a clínica.
—Não! — Ele grita. — Se eu for ficar com alguém, não vai ser com vocês.
Os pais me olham. O olhar quase me deixa ouvir o que eles estão pensando. A dúvida pairando no ar, minha casa é o melhor lugar pra ele ou eu vou foder tudo?
—Filho, a gente te ama e te apoia, mas... — Começa o pai.
—Não! — Ele interrompe. — Ou eu fico com ele ou eu não piso na clínica.
É o tipo de chantagem que não dá pra dizer não, principalmente vindo do próprio filho.
Entramos no meu carro.
—Você vai me dar mais um tiro antes de eu ir, não vai? — Ele me pergunta.
Eu rio, rio mesmo sabendo que ele está falando sério.
—Não ria. Eu sei que você não me negaria o último desejo de um moribundo.
—Cara, você não tem condições de cheirar nem um grão de pó a mais.
Ele não emite mais um único som até chegarmos em casa. Ele vai direto para o quarto de hóspedes e se tranca lá.
O pedido dele, por mais sem noção que pareça, faz sentido. Faz sentido pra um viciado, pelo menos.
As primeiras 24h de abstinência são as piores e com ele não foi diferente. Ele sua e se contorce na cama, gritando, presenciando todos os tipos de pesadelos lúcidos que a mente humana é capaz de criar. Não consegue comer ou tomar água, a dor interna é grande demais.
—SÓ MAIS UM, PELO AMOR DE DEUS! — Ele grita quando entro no quarto para trocar os baldes de vômito, merda e mijo ao lado da cama.
É fácil pra um professor de faculdade esquerdista e revolucionário falar de ética e moral quando não é ele lidando com o melhor amigo na pior situação que um homem pode passar. Não é ele limpando o vômito espalhado pelo chão enquanto outro ser humano grita e se contorce do lado.
Só mais um.
Só mais UM!
SÓ MAIS UM, CARALHO!
Os gritos não saem da minha cabeça.
Na manhã seguinte, depois de uma noite insone devido aos gritos e minha própria angústia interna, ligo pro meu antigo contato, compro a porra do pó e jogo na mesa da minha sala.
Ele voa na pilha de pó como um animal e eu fico enojado. Enojado com ele, com a droga, com a minha decisão de merda. Quando ele está prestes a meter o nariz na coca, eu o puxo pelo colarinho e ele voa pra parede. Os olhos dele me perfuram com um ódio que eu nunca vi em ninguém antes. Ele pula em mim, me derruba no chão e esmurra minha cara contra o chão.
Tudo está embaçado.
Tudo está em dobro.
Me esforço pra levantar, mas é tarde. A pilha se foi.
O corpo se debate, a espuma sai pela boca, o pó cobre o nariz.
O corpo se debate.
O corpo para.
O corpo para, a culpa não.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

22. Strangers In The Night

Here I am, jobless, penniless, drunk, struggling with a blank page in a strange city in a country that is not my own. A bottle of Jack Daniel’s by my side, cigarette taste in my mouth and all the coke is gone. Fuck it, I’m going out.
            The night is receptive, not as cold as the average Dubliner night. I walk through O’Connell Street heading to Temple Bar. I wish I could go to somewhere quieter, but I’m afraid of what I’m capable when there are not a lot of people around.
            The Temple Bar is pleasantly empty. I find a small pub and sit by the counter. I used to think that people sitting alone by the counter were all lonely cunts with miserable lives, feeling sorry for themselves. Now I’m sure.
            —Are you alright, mate? — Says the bartender as I sit and take off my jacket.
            —Grand. — I say sarcastically. — Jameson, please, no ice.
            —Rough night? — He asks me pouring the whiskey in the glass.
            —Oh boy, you wouldn’t imagine. — I say with a weak smile and pay the bloke. — Keep it coming, will ya?
            I look around and all I can see is groups of young people like myself, having the time of their lives, most of them are tourists on holidays, no worries at all.
            Dublin has so many different people that is almost impossible to go out alone at night without meeting anyone interesting, even outside the pubs.
            People approach you on the streets just to get to know you, to hear your stories, to have a new mate. Even if you never talk to that person again, five minutes with them creates an incredible connection.
            It’s beautiful and sad at the same time.
A girl sits by my side on the counter and starts looking at me. Before I could make any sound, she starts talking.
            —Either you love yourself so much that you don’t think anyone deserves to spend time with you or you loath yourself so much that you don’t think anyone deserves to waste time with your fucked up shit. Which one?
            —Second option, I guess. — I say as she orders her own Jameson. — Why?
            —In this case, I’ll be drinking here with you, either you like it or not.
            —You’re not a hooker, are you?
            —No, but thank you for thinking that people should pay to fuck me.
            Of course I think people should pay to fuck her, she’s absolutely gorgeous, not like most Irish girls with their fake tan, standard hairstyle, bad teeth and dresses short enough to allow you to see their uterus. People should pay a fucking fortune. She’s naturally redhead, with green eyes and red lipstick that contrasts with her white skin, white like a canvas. And that canvas should only be used by master painters. Not me.
            —So why are you willing to drink with a hopeless fucked up cunt that could be a rapist or some nonce? — I ask.
            —Perhaps I’m hopeless as well. Perhaps I just like lonely people. Perhaps I just think you’re cute. — She answers. Her voice is soft like her skin must be. — Let’s go outside, I could really use a fag.
            Outside is colder than it was before. Weather in Dublin is a fucking rollercoaster. I light our cigarettes and let the smoke dance in the chilli Irish night, among other drunk people and junkies looking for a fight.
            —What’s your name? — I ask.
            —No names, please. — She says smiling.
            —Why?
            —We are both grown-ups with some time in this planet, we know a shitload of people, a shitload of different names. If you say your name is Sean, for example, it’ll remind me of some Sean and it may not be a good memory. The same goes for me, if I say my name is Emma, and I’m not saying that it is, it may bring you back some bad memories of some Emma.
            —You had a lot of time to think this through, didn’t you? — I say getting a little closer to her.
            —I sure did. — She says laughing. — What do you do?
            —I’m a cliché and you?
            —Wait! Slow down, boy. What kind of cliché?
            —The drunk, junkie writer with a self-destructive lifestyle and no real job nor real money.
            —Lucky for you, Mr Writer, I’m a drunk and wee bit junkie myself. Why don’t we go to my place where there’s free booze and free drugs, get fucked up, fuck our brains out and you leave tomorrow like it never happened?
            —Good God, you just read my mind. — I say. I honestly don’t know if I’m more interested in the drugs or in the sex. Either way, I don’t see what can go wrong at this point.
            Her flat is not far from Temple Bar. Actually, it is just a few blocks away from the pub where we met. Her flatmates are away on holidays, so we have the whole apartment for ourselves. She has a huge stock of cocaine and MDMA. Considering her job as a drug dealer, I shouldn’t be impressed by it, but I am anyway.
            —Make yourself at home. — She says going to her bedroom.
            I light a cigarette and take a look at her records, there are really good stuff there, I put Rolling Stones’ Exile On Main St on. She comes back and fixes us a whiskey.
            —Nice choice of music. — She says.
            —So, which one do you want to take; Cocaine or MDMA? — I ask.
            —The right question, Mr Writer, is which do I want to take first?
            We smile and I start to line some cocaine on a mirror that was resting on the table. I snort first and, Jesus, that is invigorating. The coke goes into my nose heading to my veins and my brain. If I was minimally tired, I’m not anymore. I stand up and start walking around the living room.
            —Are you OK? — She asks after snorting her share.
            —I’m absolutely perfect. — I say. I really am perfect, I’m not “not too bad” as the Irish use to say, I’m GRAND! That’s exactly what I needed this night.
            —Up to some ecstasy? — She asks wrapping her arms around my neck.
            God, I’ve never used cocaine and MDMA at the same time, I don’t know what could happen, but, as much as it sounds like a bad idea, it’s also a great one.
            —YES! — I shout.
            She smiles and kisses me for the first time. Our mouths are dry as a desert due to the purity of that white powder lying on the mirror, but it doesn’t matter. In her kiss she passes me the pill and I swallow it.
            What I feel now is almost indescribable. I feel the music penetrating my skin, I feel the euphoria taking control of my body, I feel my dick getting hard and our hands are exploring each other’s bodies. Why can’t we mix drugs and sex, right?

***

            She goes up and down on my cock, her boobs are shaking in my hands and her moan is getting louder and louder.
            —Are you going to cum? — She screams.
            —Soon. — I say. I hate talking and fucking.
            —Cum with me!
            I do. We cum together. I finally get tired again.
            —The sun is rising. — She says lying by my side. Fuck, we shagged the whole night. — You should go.
            —Another one before I leave? — I say.
            —Sure. — She says lining my last bit of cocaine. It’s wonderful how she knows exactly what I’m talking about.
            I snort my last line and walk out her building with her mobile number in my pocket and her real name in my head. As a fellow writer once told me, Dublin is the right place to be if you want a good story.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

21. Amo a Ideia de Te Amar

Ela sorria pra mim aquele sorriso capaz de fazer derreter o mais duros dos corações enquanto eu segurava sua mão. Homens que dizem que o sorriso é a primeira coisa que prestam atenção numa mulher são chamados de mentirosos, mas bunda ou peito algum diz mais sobre ela do que um sorriso. Não acredito que é a última vez que eu vejo aquele sorriso por um bom tempo. Ela olha nos meus olhos e eu me sinto nu enquanto ela vasculha cada centímetro da minha alma. Mas eu não tenho medo, não com ela.
            —Fica. — Ela diz. Ela diz isso de um jeito que me faz estremecer. Eu quase digo que sim, que eu fico, mas eu não posso. Eu quero ficar quase tanto quanto eu quero ir embora.
            —Você sabe que eu não posso. — Eu digo com o coração apertado. Apertado como se meu corpo fosse pequeno demais, quase insuportável. Um calafrio sobe pela minha espinha.
            —Eu sei, eu quero que você vá, de verdade. Mas também quero que você fique. — Ela diz com um sorriso triste estampando o rosto. Sorrio de volta tentando parecer mais animado, mas não sei se consigo.
            Acendemos um cigarro cada um enquanto o jazz toca e a música é o único som dominando o espaço entre nós dois. Tudo ficou em câmera lenta por alguns instantes, o jazz, a fumaça dos cigarros, os movimentos dela enquanto dançava. Dançava como se nada mais no mundo importasse, como se fosse a última dança da história da humanidade. Tudo isso numa tragada de cigarro. Essa tragada podia durar pra sempre, a música, a dança, o sorriso. Tudo deveria ter sido eternizado.
            Mas não foi. Quando dei por mim ela estava me abraçando com força e eu retribuía enquanto acariciava sua nuca. Queria beijá-la como se não houvesse amanhã, queria levá-la comigo, queria dizer o quanto eu amava a ideia de amá-la. Mas não fiz nada disso.
            Quando nos soltamos tudo que eu pude fazer era olha para aquela boca, para aqueles olhos, para aquele sorriso tão inocente e ao mesmo tempo tão cheio de significado. Eu queria captar aquele momento e guardar na minha cabeça pra sempre. Aquele momento específico, com aquela expressão no rosto.
É o tipo de coisa que todo homem sonha em ver, sua garota num instante de perfeição absoluta, onde todos os elementos estão completamente em harmonia. Os sons, os gestos, os batimentos do coração. E eu estava presenciando isso e uma alegria tomou conta de mim, uma alegria que eu não sentia há anos. O tipo de alegria que faz você ficar arrepiado como se não coubesse dentro de você.
—Promete não me esquecer? — Ela diz ainda com aquele sorriso quente, acolhedor.
—Eu não te esqueceria nem se eu quisesse. — Eu digo antes de dar o último beijo.
            Último por enquanto.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

20. Ou Não

Ele e aquele sorriso. O sorriso dele o faz parecer invencível, imortal. Cabelos negros e bagunçados, corpo musculoso e esse estilo de estrela do rock que me faz pirar.
            O que é aquilo na mão dele? Ele está muito longe, mas parece uma lata de cerveja. Minhas amigas detestam homens que bebem, mas eu gosto, dá uma aura misteriosa pra eles. Os que fumam também.
            Que merda! Ele nem olha pra mim! Ele fica balançando a cabeça, acompanhando o ritmo da música e eu olhando feito uma besta. O bar inteiro deve ter percebido já. Pego um cigarro na bolsa e acendo.
            —Pode parar, mocinha! — O garçom grita do balcão. — Não se fuma mais em lugar fechado. — Ele diz apontando pro teto e pras paredes.
            —Vai se foder. — Resmungo apagando o cigarro no chão mesmo.
            Por que ele não me nota? Nada no mundo me faria mais feliz agora, nem as minhas amigas que ficam fofocando aqui do meu lado, nem o baseado que tem na bolsa de uma delas, nem mesmo o papelote de coca que tem na minha.
            Ele olha. Eu congelo. Minha boca fica seca e eu dou mais um gole no meu gin. Ele grita alguma coisa no ouvido de um dos amigos dele que também me olha e sorri. Agora eu é que estou fingindo não ver.
            O garçom pentelho vem na direção da minha mesa e me entrega uma taça de Dry Martini.
            —Cortesia daquele rapaz na pista. — Ele diz apontando pra ele. — Ele só pediu o seu telefone em troca.
            Anoto meu número num guardanapo e dou para o garçom. Observo toda a movimentação desde a entrega do guardanapo até o sumiço do meu garoto. Alguns minutos se passaram e uma mensagem chega no meu celular. Me encontra ao lado do balcão.
            Levanto e vou até ele.
            —Ouvi dizer que você andou me observando. — Ele diz sorrindo. Sua voz é linda.
            —Boatos... — Eu respondo sorrindo de volta.
            Ele avança e seus lábios quase tocam os meus. Não tem nada nesse mundo que eu gostaria mais do que um beijo dele aqui e agora.
            —Mas eu não posso! — Ele me olha confuso, tadinho. — Você vai me beijar agora, pode se apaixonar ou não por mim, mas eu já estou apaixonada por você e não quero arriscar os 50% de chances existem de não ser recíproco. Não quero sofrer por você, não quero chorar. Você pode ser cruel comigo ou não, são outros 50%. Eu não sei mais o que pensar, eu te olhei esse tempo todo, é verdade, olhei você dançando, pulando, delirando. Eu mesma delirei por você. Você poderia delirar por mim ou não, mais 50%! As probabilidades estão tanto ao nosso favor como contra nós! Nunca saberemos ao certo como isso vai terminar. Podemos ir bem e pra sempre ou mal e nunca mais nos veremos de novo, é, eu sei, adicionei mais 50%!
            —Quer só conversar por enquanto? — Ele me pergunta.
            —Quero, como você sabia que eu gosto de Martini?
            —Eu tinha 50% de estar certo e estava, não?
            Eu o beijo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Não Cabe em 140 Caracteres #2

Aconteceu comigo esses dias...
—Você sabe que eu sempre fui apaixonado por você, né? — Eu disse.
—Rapha, você nunca foi apaixonado por mim, você nunca foi apaixonado por ninguém. Você sempre foi apaixonado pela idéia de estar apaixonado.
E acho que ela tinha razão. As minhas ex-namoradas que me desculpem, mas acho que eu nunca amei de verdade nenhuma delas. A forma como eu lido com o término, a velocidade com que eu esqueço tudo por mais intenso que tenha sido...
Talvez seja por isso que eu escrevo sobre amor mais do que eu digo “eu te amo”, a idéia é mais interessante do que a prática pra mim.
Acho que às vezes a gente fica tão obcecado procurando aquela forma de amor do romantismo, idealizada que aceita o que vier pela frente e distorce tudo na cabeça, fazendo o lixo parecer perfeito e apaixonante. Talvez o amor do romantismo nem exista, talvez todos estejam presos dentro de uma idéia, tão presos que a idéia passa a ser a realidade.
Está na hora de trocarmos os “eu te amo” sem significados para “eu amo a idéia de te amar” que contém muito mais verdade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

19. Pequeno Conto Que Quase Todo Homem Já Viveu

           Menino conhece menina. Menino se apaixona pela menina. Menina quebra o coração do menino. O coração do menino fica duro como pedra. Menino vira um babaca com as meninas e sai por aí quebrando corações.
            Menino amadurece. Menino muda e seu coração não é mais pedra. Menino conhece menina. Menina quebra o coração do menino. O ciclo recomeça.