domingo, 24 de julho de 2011

11. Bar/Bistrô


Sento na mesinha do bar ou seja lá como os franceses chamam esse bistrô que só serve álcool e aperitivos, o lugar é iluminado apenas por velas, sem luz elétrica. Não acho que bar seja uma palavra apropriada pra um lugar como esse. Bistrô também não é. O garçom chega já de nariz empinado, nariz grande de francês.
            —Me vê um absinto e aquela porção de queijos. — Eu digo sem tirar os olhos do menu.
            O garçom volta com um copo de whisky com absinto e gelo dentro.
            —Cadê aquele torrão de açúcar? — Eu pergunto antes que ele tivesse a chance de sair à francesa.
            —Não estamos no século dezenove, monsieur. — Ele responde. Bem viadô esse garçom.
            —Vocês não usam luz elétrica e você me diz que não estamos no século dezenove? — Eu rebato.
            —Pardon, monsieur, providenciarei o torrão. — Dá pra sentir o ódio no tom de voz do babacá.
            Os vinhos da França são excelentes, o fromage é incomparável, mas os garçons... Por mim só teria Buffet na França, nenhum estabelecimento teria garçom. Eles podem ser adeptos da Igualdade e da Liberdade, mas faltou a Fraternidade.
            O absinto e o queijo chegam e são praticamente jogados na mesa como cartas de baralho. O garçom francês que pegue no meu caralho.
            Olho em volta em busca de algo que não sei exatamente o que é. Algo para me ocupar. Eis que vejo uma moça sentada do lado de fora do Bar/Bistrô fumando um cigarro e lendo um livro com uma taça de vinho na mesa, me sinto dentro de um filme do Godard. Loirinha, cabelo liso e longo, olhos azuis e todos os outros clichês da Nouvelle Vague que você puder pensar. Paris é a cidade dos clichês, acho que foi por isso que nunca traduziram essa palavra.
            Ensaio um approach mentalmente por alguns segundos enquanto bebo minha fada verde. Fada verde que não existe porra nenhuma, tudo marketing. Levanto-me e vou até a mademoiselle solitária. Levo o copo pro garçom viadô não cuspir dentro.
            —Salut, mademoiselle. Posso sentar? — Pergunto apontando para a cadeira vazia à frente dela.
            Ela me olha de cima a baixo dá um sorriso tímido e, quando está prestes a responder, sou empurrado para longe com força o suficiente pra me derrubar, só não caí para não derramar absinto. Quando olho para meu agressor não fico surpreso em ver que é o garçom. Justo a porra do garçom.
            O viadô, que não é tão viadô afinal, me acerta um gancho no queixo tão forte que nem o meu absinto me salva da queda. Quando consigo me levantar, vejo a francesinha bradando para qualquer alma passante o quão idiota o garçom é. Se tivessem lido os primeiros parágrafos, teria sido redundante. Ele estava de cabeça baixa.
            Por mais que eu concordasse com a mulher, eu não pude evitar sentir pena do garçom humilhado na frente de todos, humilhação dói mais do que qualquer soco. Fui até ele e o puxei para dentro do estabelecimento.
            —Esquece essa vadia, se ela gostasse de você não te humilharia assim. Senta aí, te pago um absinto. — Eu disse enquanto a chienne protestava contra meu ato de solidariedade.

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